{"id":2417,"date":"2019-09-03T11:09:45","date_gmt":"2019-09-03T11:09:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2417"},"modified":"2020-05-19T12:35:55","modified_gmt":"2020-05-19T12:35:55","slug":"museus-construcao-do-lugar-coletivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/09\/03\/museus-construcao-do-lugar-coletivo\/","title":{"rendered":"Museus: constru\u00e7\u00e3o do lugar coletivo"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2019, foram inauguradas as bases do Museu Nacional Resist\u00eancia e Liberdade, na Fortaleza de Peniche. Poucos meses depois, a C\u00e2mara Municipal de Santa Comba D\u00e3o voltava a anunciar a inten\u00e7\u00e3o de avan\u00e7ar para a cria\u00e7\u00e3o de um \u201cMuseu Salazar\u201d, onde se pretende dar enfoque \u00e0 vida e percurso pol\u00edtico do ditador que subjugou o pa\u00eds durante grande parte do regime fascista, em vigor durante  48 anos. Declara\u00e7\u00f5es amb\u00edguas por parte do presidente da c\u00e2mara quanto aos conte\u00fados e objetivos do espa\u00e7o desencadearam receios de que este n\u00e3o venha a garantir a den\u00fancia dos crimes do regime fascista de Salazar e que, pelo contr\u00e1rio, sirva o processo de branqueamento hist\u00f3rico. <\/p>\n\n\n\n<p>Simultaneamente, chegam not\u00edcias sobre a Biblioteca Museu Rep\u00fablica e Resist\u00eancia (BMRR), em Lisboa, estar em risco, com os deputados municipais do PS, PSD e seis independentes a votarem contra a recomenda\u00e7\u00e3o do PCP de \u201cmanter a BMRR no mesmo espa\u00e7o, com o mesmo nome e \u00e2mbito, dotando-a de meios log\u00edsticos que permitam uma maior dinamiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 pouco mais de um ano, os conte\u00fados e at\u00e9 o nome de um hipot\u00e9tico museu sobre os \u201cdescobrimentos\u201d motivavam um aceso debate. <\/p>\n\n\n\n<p>A mem\u00f3ria e a hist\u00f3ria do pa\u00eds e as suas fixa\u00e7\u00f5es museol\u00f3gicas parecem assim em plena convuls\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O que esperamos de um museu no s\u00e9culo XXI? Um mero lugar de mem\u00f3ria? De enaltecimento? De debate? Que advogue uma neutralidade cient\u00edfica? E n\u00e3o \u00e9 necessariamente pol\u00edtico o ato de reservar um espa\u00e7o \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria de determinado objecto hist\u00f3rico?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 margem da pol\u00e9mica, mas plenamente no centro deste debate, o Museu do Neo-realismo apresenta-se como uma tentativa de s\u00edntese destas problem\u00e1ticas, apostando numa abordagem que, assumindo um olhar pr\u00f3prio, parece rejeitar um exerc\u00edcio meramente laudat\u00f3rio e simplista.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos anos 80 do s\u00e9culo passado, um grupo de intelectuais ligados ao neo-realismo, de onde se destaca Ant\u00f3nio Mota Redol, filho de Alves Redol, um dos principais vultos do movimento, come\u00e7ou a discutir a ideia de cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o, em Vila Franca de Xira (ponto nevr\u00e1lgico do casamento entre o movimento e respectiva filia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica), dedicado \u00e0quele que \u00e9, considerado por muitos, o maior movimento art\u00edstico portugu\u00eas do s\u00e9culo XX. Esta ideia colheu apoio por parte da autarquia de ent\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Durante os anos noventa, o projeto desenvolveu-se em torno dos arquivos e bibliografia, e o seu acervo foi sendo largamente enriquecido por doa\u00e7\u00f5es de esp\u00f3lios de tipos diversificados de v\u00e1rios nomes ligados ao movimento, tendo sido a primeira delas feita pelo escritor Manuel da Fonseca, em 1991. Desenvolveu assim um vasto conjunto de fundos, com destaque para esp\u00f3lios liter\u00e1rios e editoriais, arquivos documentais (impressos e audiovisuais), acervos iconogr\u00e1ficos, obras de artes pl\u00e1sticas, bibliotecas particulares e j\u00e1 uma biblioteca especializada na tem\u00e1tica neorrealista. Apesar deste consistente trabalho de recolha, preserva\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o, s\u00f3 em 2007, depois de passar por v\u00e1rios locais provis\u00f3rios, o museu viria a ter o espa\u00e7o definitivo. O edif\u00edcio, concebido pelo arquiteto Alcino Soutinho, organiza-se entre exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias e o n\u00facleo central, com a exposi\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o, atualmente em processo de remodela\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>David Santos dirigiu o espa\u00e7o at\u00e9 2014, ao qual se seguiu Ant\u00f3nio Pedro Pita e, em 2018, a atual respons\u00e1vel, Raquel Henriques da Silva.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem hoje visita este museu n\u00e3o encontra um santu\u00e1rio. O movimento que lhe d\u00e1 sentido nunca foi motivo de agrilhoamento. Pelo contr\u00e1rio, dele se parte para o di\u00e1logo com as novas abordagens e linguagens da arte contempor\u00e2nea que t\u00eam espa\u00e7o regular, desde a sua abertura, em exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias. Todas as exposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o acompanhadas por programa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, nomeadamente confer\u00eancias, concertos, visitas guiadas pelos pr\u00f3prios curadores.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente est\u00e3o patentes tr\u00eas exposi\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias e a exposi\u00e7\u00e3o de longa dura\u00e7\u00e3o, cujo t\u00edtulo &#8211; A Batalha pelo Conte\u00fado &#8211; remete para a quest\u00e3o central do movimento. M\u00f3bil de profundas diverg\u00eancias entre os seus intervenientes, as conce\u00e7\u00f5es sobre forma e conte\u00fado atravessaram e enformaram todo o debate neorrealista. Esta quest\u00e3o, que imprimiu ao movimento um car\u00e1ter profundamente heterog\u00e9neo, est\u00e1 vincadamente presente na exposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 atrav\u00e9s dela que conseguimos percorrer o debate, as preocupa\u00e7\u00f5es e, naturalmente, as v\u00e1rias express\u00f5es art\u00edsticas que brotaram no seio do movimento.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, no final de 2018, o museu recebeu uma exposi\u00e7\u00e3o dedicada ao artista C\u00e2ndido Portinari, um dos maiores vultos da pintura brasileira e cuja obra apresenta fortes liga\u00e7\u00f5es ao ide\u00e1rio neorrealista. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 em maio, foi inaugurada a exposi\u00e7\u00e3o dedicada ao centen\u00e1rio do nascimento do escritor <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/07\/01\/o-homem-inconformado-100-anos-de-fernando-namora\/\">Fernando Namora<\/a>, onde n\u00e3o se dispensa a passagem pelos seus exerc\u00edcios pl\u00e1sticos. Esta exposi\u00e7\u00e3o estar\u00e1 patente at\u00e9 17 de novembro.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O Museu disp\u00f5e de um centro de documenta\u00e7\u00e3o aberto a consulta, de uma livraria tem\u00e1tica, e recebe o dep\u00f3sito de v\u00e1rias cole\u00e7\u00f5es privadas, sendo a mais relevante pertencente \u00e0 associa\u00e7\u00e3o promotora do Museu do Neo-realismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A vida e trabalho deste projeto nunca estiveram a salvo da discuss\u00e3o permanente sobre as v\u00e1rias quest\u00f5es que atualmente fazem correr tinta quanto \u00e0 disputa do papel que os espa\u00e7os museol\u00f3gicos devem ocupar. Mas parece mostrar que a s\u00edntese necess\u00e1ria n\u00e3o se encontra recusando a politiza\u00e7\u00e3o e sonegando o papel da Hist\u00f3ria na constru\u00e7\u00e3o do lugar coletivo. E tal n\u00e3o \u00e9 um pormenor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2019, foram inauguradas as bases do Museu Nacional Resist\u00eancia e Liberdade, na Fortaleza de Peniche. 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