{"id":2185,"date":"2019-08-01T20:17:26","date_gmt":"2019-08-01T20:17:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2185"},"modified":"2019-12-02T12:43:30","modified_gmt":"2019-12-02T12:43:30","slug":"uma-uniao-naufragada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/08\/01\/uma-uniao-naufragada\/","title":{"rendered":"Refugiados: uma uni\u00e3o naufragada"},"content":{"rendered":"\n<p>A \u00faltima trag\u00e9dia aconteceu no dia 25, a 70 milhas ao largo de Khoms, na L\u00edbia devastada pela guerra imperialista. Uma embarca\u00e7\u00e3o em que viajavam quase 300 pessoas virou-se em rota para It\u00e1lia, fazendo mais de 150 mortos. No telejornal das 8, na RTP, esta \u201cestat\u00edstica\u201d mereceu exactamente 110 segundos de preocupa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, em contraste com os quatro minutos a seguir dedicados \u00e0 \u201cdieta paleo\u201d. Fora do telejornal ficaram, por exemplo, as funestas declara\u00e7\u00f5es que Sabah Youssef, uma sobrevivente que perdeu o filho de sete anos no naufr\u00e1gio, fez \u00e0 Reuters: \u201cNingu\u00e9m nos ajudou. Os europeus ficaram a ver-nos morrer. Agora n\u00e3o quero nada a n\u00e3o ser voltar para o meu pa\u00eds, o Sud\u00e3o, e morrer l\u00e1\u201d. Mas nem o \u00faltimo desejo de Sabah se afigura f\u00e1cil. A UE n\u00e3o se limita a n\u00e3o prestar o obrigat\u00f3rio aux\u00edlio aos refugiados que todos os dias morrem na travessia mediterr\u00e2nica, violando impunemente v\u00e1rios tratados internacionais como a Conven\u00e7\u00e3o para a Lei do Mar, a Conven\u00e7\u00e3o para o Tr\u00e1fego Mar\u00edtimo ou a Conven\u00e7\u00e3o de Busca e Salvamento Mar\u00edtimo. A UE n\u00e3o se limita tampouco, de forma p\u00fablica e reiterada, a permitir a criminaliza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es e dos indiv\u00edduos que prestam esse aux\u00edlio, de que \u00e9 exemplo a pris\u00e3o de Carola Rackete, a capit\u00e3 do Sea Watch 3. A UE arquitetou, financia e servese de uma extensa rede de campos de concentra\u00e7\u00e3o fora da Europa para onde s\u00e3o atirados os refugiados. \u00c9 em Tajoura, um destes campos de concentra\u00e7\u00e3o, que Sabah e outros 83 sobreviventes do naufr\u00e1gio est\u00e3o detidos indefinidamente em condi\u00e7\u00f5es sub-humanas, sem qualquer tipo de acusa\u00e7\u00e3o ou apoio jur\u00eddico. Recorde-se que foi no campo de concentra\u00e7\u00e3o de Tajoura que, h\u00e1 poucas semanas, morreram mais de 50 refugiados num bombardeamento. Segundo a ONU, nestes campos financiados com os nossos impostos, \u00e9 comum toda a esp\u00e9cie de atropelos dos direitos humanos, incluindo viola\u00e7\u00f5es, torturas, venda de escravos e assassinatos. A respeito destas \u201cestat\u00edsticas\u201d, as diferen\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o entre Salvini, Boris Johnson, Macron e Orb\u00e1n s\u00e3o, elas pr\u00f3prias, de natureza meramente estat\u00edstica. Arremessando taticamente os n\u00fameros dos acolhimentos uns, jogando demagogicamente com os sentimentos xen\u00f3fobos outros, todos est\u00e3o de acordo com a ideia da \u00abEuropa Fortaleza\u00bb encarnada pela Opera\u00e7\u00e3o Trit\u00e3o. Desde que a UE p\u00f4s em marcha esta opera\u00e7\u00e3o militar com um custo de 120 milh\u00f5es de euros anuais, o n\u00famero de mortos no Mediterr\u00e2neo aumentou 1600%. A filosofia da Opera\u00e7\u00e3o Trit\u00e3o expressa um consenso entre os l\u00edderes da UE: militarizar o mar, desencorajar e impedir a entrada de refugiados, financiando a sua deten\u00e7\u00e3o em campos de concentra\u00e7\u00e3o na L\u00edbia e na Turquia. Trata-se de uma vis\u00e3o cujos prop\u00f3sitos v\u00e3o muito mais al\u00e9m do que a frenagem do fluxo de refugiados e imigrantes e encerra uma estrat\u00e9gia de recoloniza\u00e7\u00e3o de \u00c1frica. Uma das pedras angulares desta estrat\u00e9gia foi colocada em Valleta, Malta, em 2015. Nesta cimeira, os l\u00edderes da UE e v\u00e1rios dos seus hom\u00f3logos africanos assinaram um Plano de Ac\u00e7\u00e3o que, no seu quarto ponto, prev\u00ea a \u201ccolabora\u00e7\u00e3o militar\u201d para \u201cdeter a imigra\u00e7\u00e3o ilegal\u201d. Na esteira desta cimeira, a UE multiplicou exponencialmente o treino, o financiamento e o armamento das for\u00e7as armadas de v\u00e1rios Estados africanos, incluindo o Sud\u00e3o, pa\u00eds submerso numa espiral de viol\u00eancia e terceiro principal pa\u00eds de origem de refugiados. Em Cartum, por exemplo, est\u00e1 atualmente a ser instalado, com fundos europeus, o ROCK, ou Centro Regional de Opera\u00e7\u00f5es, com o objetivo de refor\u00e7ar a capacidade de resposta militar do regime sudan\u00eas. A chamada \u201ccrise dos refugiados\u201d est\u00e1 a permitir que a UE, a pretexto do refor\u00e7o da capacidade dos Estados africanos para fazerem frente \u00e0 inseguran\u00e7a e ao tr\u00e1fico de seres humanos, estabele\u00e7a rela\u00e7\u00f5es neocoloniais de depend\u00eancia com esses Estados. Frequentemente, e o Sud\u00e3o \u00e9 disso um bom exemplo, o fortalecimento da capacidade b\u00e9lica destes regimes apenas contribui para alastrar a viol\u00eancia e a inseguran\u00e7a, levando a que ainda mais pessoas tenham de fugir, mas permite aos europeus voltar a colocar a sua velha bota em terras africanas. Segundo a Ag\u00eancia da ONU para os refugiados, em 2019 o mundo conheceu o maior n\u00famero de pessoas deslocadas desde que h\u00e1 registos. No total, mais de 71 milh\u00f5es de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas. Sendo que, deste n\u00famero, apenas 25 milh\u00f5es s\u00e3o oficialmente reconhecidos como \u201crefugiados\u201d, o recorde traduz um preocupante recrudescimento da inseguran\u00e7a, da fome e da guerra no mundo. E a UE, embora ficando atr\u00e1s da Turquia e do Paquist\u00e3o no n\u00famero de refugiados acolhidos, guarda para si a fatia de le\u00e3o da responsabilidade pela exist\u00eancia de refugiados. A UE participou na cria\u00e7\u00e3o da guerra na S\u00edria, emissor n\u00famero um de refugiados do mundo, contribuiu para invadir o Afeganist\u00e3o, que ocupa o segundo lugar da lista, arma o regime sudan\u00eas, que ocupa o terceiro lugar, e inventou uma guerra na L\u00edbia, principal organizador das redes de tr\u00e1fico humano para a Europa. E se a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 a m\u00e3e da crise dos refugiados, n\u00e3o faz falta um teste de paternidade para saber que o regime dos EUA \u00e9 o pai. Nenhum imp\u00e9rio ou qualquer outra forma de grande constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica colapsa sem antes dar sinais de podrid\u00e3o. A complacente indiferen\u00e7a da Uni\u00e3o Europeia perante as estat\u00edsticas dos naufragados n\u00e3o \u00e9 portanto s\u00f3 um sintoma do seu pr\u00f3prio naufr\u00e1gio moral, \u00e9 um aviso \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o do seu prazo de validade pol\u00edtica. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o se sabe ao certo quem \u00e9 o autor do proverbial cinismo \u201ca morte de um homem \u00e9 uma trag\u00e9dia, a de um milh\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma estat\u00edstica\u201d, mas a sua for\u00e7a, e recorr\u00eancia, n\u00e3o reside no nome de quem a disse, mas sim na vasta lista de candidatos a poder t\u00ea-la dito. Desde 2016, 15 mil pessoas afogaram-se no Mediterr\u00e2neo sob o olhar pl\u00e1cido e indiferente da Uni\u00e3o Europeia: s\u00f3 uma estat\u00edstica para o capitalismo, 15 000 trag\u00e9dias para a humanidade.<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":2186,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[67,65,66],"coauthors":[90],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2185"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2185"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2185\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2819,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2185\/revisions\/2819"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2185"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=2185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}