{"id":1692,"date":"2019-03-17T21:23:38","date_gmt":"2019-03-17T21:23:38","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=1692"},"modified":"2019-08-02T10:48:58","modified_gmt":"2019-08-02T10:48:58","slug":"fazes-falta-aguardela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/03\/17\/fazes-falta-aguardela\/","title":{"rendered":"Fazes falta, Aguardela"},"content":{"rendered":"\n<p>Jo\u00e3o Aguardela, m\u00fasico, teria feito 50 anos no passado dia 2 de fevereiro, se um cancro n\u00e3o o tivesse roubado demasiado cedo \u00e0 nossa companhia. Conheci-o na televis\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 90, as bandas portuguesas tocavam ao vivo na televis\u00e3o e eu lembro-me de ter visto os Sitiados, a sua banda, a \u2018escangalhar\u2019 o est\u00fadio de um lado para o outro a tocar a \u201cVida de Marinheiro\u201d. A Sandra, de acorde\u00e3o ao peito, ele com os seus longos cabelos, lindo, cantava energicamente. Segui-os nos anos seguintes por esse pa\u00eds fora, em muitos palcos, sedenta daquela energia nova que contagiava a m\u00fasica portuguesa. <\/p>\n\n\n\n<p>De repente, j\u00e1 n\u00e3o era vergonha gostar de fado, gostar de folclore, ali estavam eles a trazer multid\u00f5es a vibrar com a nossa m\u00fasica tradicional, bastando toc\u00e1-la com aquela atitude t\u00e3o deles. Nessas andan\u00e7as, o destino levou-os \u00e0 A Voz do Oper\u00e1rio por duas vezes. Na grava\u00e7\u00e3o do v\u00eddeoclipe da can\u00e7\u00e3o \u201cOutro Parvo no Meu Lugar\u201d, parcialmente gravada no Sal\u00e3o, e ainda numa outra actua\u00e7\u00e3o dos Sitiados. <\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, o Jo\u00e3o fartou-se das multid\u00f5es e de n\u00e3o poder andar na rua sem ser reconhecido, coisa que nunca o moveu, e entrou com o mesmo amor que tinha \u00e0 m\u00fasica portuguesa no universo ainda t\u00e3o desconhecido da m\u00fasica experimental. <\/p>\n\n\n\n<p>Nasceu o projeto Megafone, que mais uma vez desarranjava recolhas tradicionais, suas ou do Giacometti, para nos devolver aquele trabalho de mistura, t\u00e3o nosso e t\u00e3o atual, muito pouco compreendido para a \u00e9poca. Conheci-o pessoalmente nessa fase, quando me juntei a ele e ao Luis Varatojo para gravarmos o primeiro disco da Naifa. Foi a\u00ed que conheci o homem por tr\u00e1s das carism\u00e1ticas actua\u00e7\u00f5es ao vivo. Efectivamente, carisma n\u00e3o lhe faltava, em cada gesto quotidiano. <\/p>\n\n\n\n<p>O Jo\u00e3o acreditava em tudo o que fazia, era dono de uma f\u00e9 inabal\u00e1vel no patrim\u00f3nio cultural, e de como este poderia ser mexido e remexido, usado para qualquer demonstra\u00e7\u00e3o cultural. Irritava-se com quem queria fechar a cultura numa redoma, separando-a da vida, das pessoas. Gostava particularmente, e isso ficou bem vis\u00edvel no trabalho da Naifa, de pegar em v\u00e1rias est\u00e9ticas e mistur\u00e1-las: o primeiro disco tinha na capa uma pintura de Amadeu de Souza Cardoso, todas as letras eram de jovens poetas portugueses, e a m\u00fasica ousava de tudo, desde o uso de uma pedaleria na guitarra portuguesa \u00e0 bateria a marcar ritmos folcl\u00f3ricos, ao mesmo tempo que se visitava o grunge ou o punk nas suas t\u00e3o caracter\u00edsticas linhas de baixo. <\/p>\n\n\n\n<p>Dono de um ir\u00f3nico sentido de humor, ainda enganou a banda toda no \u00faltimo \u00e1lbum que gravou. Escreveu todas as letras sob o pseud\u00f3nimo da sua av\u00f3 paterna, entregou-as \u00e0 banda, e disse que eram de uma rapariga que vivia fora do pa\u00eds. S\u00f3 descobrimos que eram de sua autoria depois de falecer. <\/p>\n\n\n\n<p>O Jo\u00e3o n\u00e3o era de meias medidas. Ou amava ou odiava. Ou era amigo ou inimigo. Viveu sempre para as suas convic\u00e7\u00f5es e acima de tudo, para a m\u00fasica e para a cultura popular. <\/p>\n\n\n\n<p>Todas as homenagens que lhe forem feitas ser\u00e3o poucas, para o tanto que nos deixou, e pelas portas que abriu ao trabalho e \u00e0 criatividade dos artistas mais novos. <\/p>\n\n\n\n<p>Faz-me falta todos os dias o Jo\u00e3o. Faz falta ao pa\u00eds o Jo\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Aguardela, m\u00fasico, teria feito 50 anos no passado dia 2 de fevereiro, se um cancro n\u00e3o o tivesse roubado demasiado cedo \u00e0 nossa companhia. Conheci-o na televis\u00e3o. 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