{"id":1690,"date":"2019-03-17T21:21:47","date_gmt":"2019-03-17T21:21:47","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=1690"},"modified":"2019-07-09T17:02:47","modified_gmt":"2019-07-09T17:02:47","slug":"a-febre-das-almas-sensiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/03\/17\/a-febre-das-almas-sensiveis\/","title":{"rendered":"A Febre das Almas Sens\u00edveis"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>de Isabel Rio Novo<\/strong> &#8211; Edi\u00e7\u00e3o D.Quixote<\/p>\n\n\n\n<p>A peste negra, a bub\u00f3nica, a gripe que em 1918 veio de Espanha, trazida pelos ventos aziagos que, diz-se, do pa\u00eds vizinho v\u00eam, epidemia que devastou em Portugal mais de 60 mil almas, eram males c\u00edclicos, ligados sobretudo aos <em>focos de infec<\/em><em>\u00e7\u00e3o<\/em>, como escreveu Ces\u00e1rio, que corriam a c\u00e9u aberto pelas ruas das nossas cidades e vilas.<\/p>\n\n\n\n<p>A humidade das casas, a aus\u00eancia de h\u00e1bitos de higiene, a fome e a mis\u00e9ria est\u00e3o na origem de grande parte destas maleitas. A tuberculose, doen\u00e7a detectada no s\u00e9culo XVIII, tendo a sua incid\u00eancia mais devastadora nos finais do s\u00e9culo XIX e na primeira metade do s\u00e9c. XX, coincide com os alvores do romantismo, arrastando no seu caudal de bacilos, febres e temores um vasto n\u00famero de autores do movimento, prosadores e poetas, entre os quais Walt Whitman, as irm\u00e3s Bront\u00eb, Anton Tchekov, Balzac e, entre n\u00f3s, Ces\u00e1rio Verde, Ant\u00f3nio Nobre, J\u00falio Diniz, Soares de Passos, Jos\u00e9 Duro e outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Doen\u00e7a \u00abdos poetas\u00bb a designaram, n\u00e3o s\u00f3 por coexistir com esse per\u00edodo est\u00e9tico\/filos\u00f3fico, essa rom\u00e2ntica atrac\u00e7\u00e3o de abismo, de paix\u00f5es extremas, quase irracionais, que s\u00f3 o t\u00famulo mitigava; \u201cas dores da alma\u201d que Freud transmudaria em males da psique, mas igualmente pelos seus sintomas bacteriol\u00f3gicos, que de po\u00e9tico nada tinham mas que envolviam o m\u00f3rbido do universo rom\u00e2ntico: a febre, o cansa\u00e7o, o definhamento f\u00edsico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Doen\u00e7a de gente fr\u00e1gil, com pulm\u00f5es fracos, dir-se-ia democr\u00e1tica dado que a ela sucumbiram homens e mulheres de todas as origens sociais, embora os pobres a sofressem de modo mais grave e demoradamente, a tuberculose foi estigmatizada, tal como a Sida e o cancro o s\u00e3o nos nossos dias, embora por raz\u00f5es diversas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;<em>A Febre das Almas Sens<\/em><em>\u00edveis,<\/em> romance de Isabel Rio Novo diz-nos dessas maleitas do peito com raro apuro narrativo, inventariando a luz e a sombra, os saud\u00e1veis e os enfermos, os constrangimentos sociais e os estigmas da doen\u00e7a, as complexas rela\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia disfuncional de Armando, tamb\u00e9m ela imbu\u00edda de alguns tra\u00e7os do decadentismo rom\u00e2ntico. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O romance de Isabel Rio Novo, descrito em dois planos discursivos que se interpenetram, a voz que narra e uma voz outra que inventaria o tempo salazarento, um tempo sem futuro onde a esperan\u00e7a chegava sempre tarde, do qual s\u00f3 restam, no Caramulo e em Penacova, monumentais ru\u00ednas.<\/p>\n\n\n\n<p>Rio Novo d\u00e1-nos um romance de alerta e de mem\u00f3rias, que habita habilmente o nosso tempo tamb\u00e9m ele portador de maleitas e de esconjuros. Um romance que traz para a modernidade o espectro da finitude.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>de Isabel Rio Novo &#8211; Edi\u00e7\u00e3o D.Quixote A peste negra, a bub\u00f3nica, a gripe que em 1918 veio de Espanha, trazida pelos ventos aziagos que, diz-se, do pa\u00eds vizinho v\u00eam, epidemia que devastou em Portugal mais de 60 mil almas, eram males c\u00edclicos, ligados sobretudo aos focos de infec\u00e7\u00e3o, como escreveu Ces\u00e1rio, que corriam a &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/03\/17\/a-febre-das-almas-sensiveis\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">A Febre das Almas Sens\u00edveis<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":2141,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1690"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1690"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1690\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1996,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1690\/revisions\/1996"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2141"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1690"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=1690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}