{"id":1687,"date":"2019-03-17T21:15:22","date_gmt":"2019-03-17T21:15:22","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=1687"},"modified":"2019-08-02T10:58:11","modified_gmt":"2019-08-02T10:58:11","slug":"para-nao-dizerem-que-falei-so-da-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/03\/17\/para-nao-dizerem-que-falei-so-da-venezuela\/","title":{"rendered":"Para n\u00e3o dizerem que  falei s\u00f3 da Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>Comecemos por uma hist\u00f3ria para discutirmos a independ\u00eancia do jornalismo. O escritor basco Joseba Sarrionandia, o \u00fanico que conhe\u00e7o que fugiu da cadeia dentro das colunas de uma aparelhagem de um concerto, manteve um di\u00e1rio na cadeia em que escrevia algumas reflex\u00f5es ao longo dos dias que passavam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Napole\u00e3o Bonaparte esteve recluso na ilha de Elba desde que abdicou em Fontainebleau em Abril de 1814 at\u00e9 que na Primavera de 1815 se juntou ao seu ex\u00e9rcito e decidiu voltar a Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Os t\u00edtulos do di\u00e1rio parisiense Moniteur Universel durante todo aquele m\u00eas de Mar\u00e7o s\u00e3o assombrosos, pois oferecem um testemunho sem igual do avan\u00e7o do ex-imperador:<\/p>\n\n\n\n<p>9 de Mar\u00e7o: \u201cO monstro escapou ao seu desterro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>10 de Mar\u00e7o: \u201cO ogre corso desembarcou no cabo Jean\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>11 de Mar\u00e7o: \u201cO tigre sangrento apareceu na zona de Gap. Para a\u00ed se dirigem os ex\u00e9rcitos para terminar com o seu avan\u00e7o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>12 de Mar\u00e7o: \u201cO monstro chegou \u00e0 cidade de Grenoble\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>13 de Mar\u00e7o: \u201cO tirano est\u00e1 agora entre a cidade de Grenoble e Lyon\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>18 de Mar\u00e7o: \u201cO usurpador ousou chegar at\u00e9 a um lugar a 60 horas de marcha da capital\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>19 de Mar\u00e7o: \u201cBonaparte aproxima-se em passo veloz, mas \u00e9 imposs\u00edvel que entre em Paris\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>20 de Mar\u00e7o: \u201cNapole\u00e3o chegar\u00e1 amanh\u00e3 \u00e0s muralhas de Paris\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>21 de Mar\u00e7o: \u201cO Imperador Napole\u00e3o est\u00e1 em Fontainebleau\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>22 de Mar\u00e7o: \u201cOntem pela tarde sua Majestade o Imperador fez a sua entrada p\u00fablica no seu pal\u00e1cio. Nada pode superar este regozijo universal\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1rio de Sarrionandia n\u00e3o revela se o director do afortunado di\u00e1rio foi fuzilado ou condecorado. Durante muito tempo aqueles que escreviam s\u00f3 podiam opinar nas entrelinhas. Isso acontecia com a informa\u00e7\u00e3o, como qualquer outra actividade humana. O pintor espanhol Goya era obrigado a retratar, como todos os seus pares, os poderosos mas conseguia inscrever um olhar cr\u00edtico no espa\u00e7o confinado de uma arte oficial. A sua forma de expressar a degeneresc\u00eancia moral da nobreza, encontrava-se mais na forma como apareciam as faces destes, e a loucura que exibiam nos olhos, do que na express\u00e3o de uma tem\u00e1tica livre, num tempo em que isso era praticamente imposs\u00edvel. A historieta que Sarrionandia copia \u00e9 obviamente um caso limite, em que a independ\u00eancia do jornalismo \u00e9 condicionada pela ponta das baionetas de turno. O autor das not\u00edcias n\u00e3o \u00e9 \u201cindependente\u201d porque n\u00e3o \u00e9 livre. Provavelmente far\u00e1 com o mesmo empenho as not\u00edcias favor\u00e1veis a Bonaparte, como fez as do anterior senhor que ocupava o trono no pal\u00e1cio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os jornalistas podem e devem ser livres, mas \u00e9 preciso perceber que n\u00e3o s\u00e3o nunca independentes dos seus preconceitos e da sua forma de ver a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Num conhecido estudo do antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss, fala-se de uma aldeia em que os habitantes a desenham de uma maneira diferente conforme a posi\u00e7\u00e3o social que t\u00eam, que implica viver numa parte diferente da aldeia. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma maneira de os habitantes dessa aldeia conseguirem ter a mesma imagem do seu espa\u00e7o, porque ele \u00e9 descrito a partir daquele acontecimento traum\u00e1tico que os divide socialmente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O facto de os jornalistas terem opini\u00f5es diferentes , por necessariamente terem vidas diversas, n\u00e3o os pode impedir de batalharem por fazer um jornalismo bem feito: o que significa que t\u00eam de seguir um m\u00e9todo que lhes permita separar ju\u00edzos de valor de ju\u00edzos de facto, tentar compreender e ouvir as diversas partes que interv\u00eam numa determinada situa\u00e7\u00e3o. A pr\u00e1tica profissional exige intelig\u00eancia, honestidade e vontade de perceber os outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O efeito de manada que se assiste no pseudo-jornalismo dos grandes acontecimentos mundiais faz lembrar uma hist\u00f3ria contada no livro <em>O Enviado Especial<\/em>, de Evelyn Waugh, sobre um grande rep\u00f3rter que \u00e9 enviado para cobrir um conflito nos Balc\u00e3s. Na \u00e9poca, as desloca\u00e7\u00f5es eram feitas de comboio. O admir\u00e1vel jornalista adormece e sai na esta\u00e7\u00e3o errada, o que no meio da confus\u00e3o da regi\u00e3o significa que desembarcou na capital de uma outra rep\u00fablica. J\u00e1 que l\u00e1 est\u00e1 come\u00e7a a enviar telexes sobre uma crise, um conflito que se vai transformar numa guerra civil. Perante a publica\u00e7\u00e3o destas not\u00edcias, outros jornais mandam jornalistas. Ao entrarem no pa\u00eds n\u00e3o v\u00eaem nada disso, mas como o grande rep\u00f3rter continuava a enviar textos sobre a guerra civil que avan\u00e7ava, para n\u00e3o perderam perante a concorr\u00eancia, fazem o mesmo e enviam um conjunto de not\u00edcias cada vez mais graves. Perante as pe\u00e7as dos jornais, a bolsa despenha-se, o governo desse pa\u00eds demite-se e o pa\u00eds entra finalmente em guerra civil. Como v\u00eaem, a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 uma p\u00e1lida imita\u00e7\u00e3o da realidade que assistimos hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comecemos por uma hist\u00f3ria para discutirmos a independ\u00eancia do jornalismo. 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