{"id":1469,"date":"2019-02-06T12:27:01","date_gmt":"2019-02-06T12:27:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=1469"},"modified":"2019-02-07T12:12:07","modified_gmt":"2019-02-07T12:12:07","slug":"o-povo-cubano-e-um-povo-heroico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/02\/06\/o-povo-cubano-e-um-povo-heroico\/","title":{"rendered":"\u201cO povo cubano \u00e9 um povo her\u00f3ico\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Mercedes Martinez Vald\u00e9s \u00e9 embaixadora de Cuba em Portugal h\u00e1 ano e meio e faz o retrato hist\u00f3rico da ilha. Em 1959, as for\u00e7as rebeldes lideradas por Fidel Castro derrubaram o fascismo em Cuba e abriram caminho a uma revolu\u00e7\u00e3o que prossegue, 60 anos depois, a apenas 140 quil\u00f3metros dos Estados Unidos. Visitada por mais de 30 mil portugueses no ano passado, Cuba est\u00e1 a menos de um m\u00eas de referendar uma proposta de nova Constitui\u00e7\u00e3o. Hoje, de acordo com dados da ONU, \u00e9 um dos pa\u00edses mais avan\u00e7ados da Am\u00e9rica Latina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por que se houve uma revolu\u00e7\u00e3o em 1959?<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00ednhamos que mudar o que havia em Cuba. Que era analfabetismo, latifundismo, explora\u00e7\u00e3o, prostitui\u00e7\u00e3o, jogo e, sobretudo, um governo que correspondia aos interesses n\u00e3o dos que viviam l\u00e1 mas dos interesses do imp\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizia-se que Cuba era o bordel dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Exacto. Era o bordel dos Estados Unidos e o dinheiro do casino ia para os bolsos dos mafiosos e as mulheres viviam da prostitui\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria \u00e0s vezes tem, como n\u00f3s dizemos, p\u00e9s curtos, mas para as pessoas que viveram naquela altura era muito dif\u00edcil. Havia discrimina\u00e7\u00e3o racial. Os negros em Cuba n\u00e3o podiam ir \u00e0 praia. A praia era para os brancos. T\u00ednhamos um sistema que para nada correspondia aos interesses dos cubanos e, sobretudo, n\u00e3o correspondia ao desejo do povo de ser independente e soberano.<\/p>\n\n\n\n<p>E quais \u00e9 que s\u00e3o as principais conquistas destes 60 anos de revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que a pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a maior das conquistas e dentro da revolu\u00e7\u00e3o o processo como tal. A unidade do povo, os avan\u00e7os sociais, o facto de Cuba ser um pa\u00eds independente, soberano e de n\u00e3o depender do ditado de ningu\u00e9m. Essas s\u00e3o as principais conquistas. Cuba \u00e9 hoje um pa\u00eds livre, e tem um povo culto. Como dizia o pr\u00f3prio ap\u00f3stolo da nossa independ\u00eancia, Jos\u00e9 Mart\u00ed, \u201cser culto para ser livre\u201d. A revolu\u00e7\u00e3o chegou, cresceu e continuar\u00e1. Quando fala com os cubanos, dizem sempre que h\u00e1 que melhorar e \u00e9 verdade. Temos muitas coisas a melhorar mas nenhum cubano quer perder o que tem. Ningu\u00e9m quer perder a sa\u00fade que \u00e9 gratuita, a educa\u00e7\u00e3o gratuita, o desporto subsidiado, a cultura subsidiada, o cart\u00e3o de racionamento. S\u00e3o conquistas do processo que ningu\u00e9m quer perder. Queremos melhorar e nisso andamos, a tentar melhorar porque o que n\u00f3s estamos a fazer \u00e9 distribuir as nossas riquezas entre todos e n\u00e3o s\u00e3o muitas. Cuba \u00e9 um pa\u00eds n\u00e3o desenvolvido. As pessoas julgam que Cuba \u00e9 a Fran\u00e7a. Temos praias muito bonitas, temos rum, temos charutos mas Cuba \u00e9 um pa\u00eds pequeno com recursos naturais limitados. Temos que fazer muito mais mas ningu\u00e9m quer voltar para o que t\u00ednhamos antes de 1959.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quais foram os principais obst\u00e1culos que enfrentou o povo cubano?<\/p>\n\n\n\n<p>O povo cubano \u00e9 um povo her\u00f3ico. Se fizer um percurso pela nossa hist\u00f3ria, ver\u00e1 que depois do triunfo da revolu\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos tiraram-nos as quotas a\u00e7ucareiras, come\u00e7aram a preparar mercen\u00e1rios e invadiram Cuba em 1961. Alentaram e promoveram pessoas armadas nas montanhas, fizeram atentados terroristas, inclusivamente, em Portugal. Temos c\u00e1 duas v\u00edtimas dos atentados contra diplomatas. Tamb\u00e9m houve atentados contra lojas, infant\u00e1rios, pescadores e houve um contra um avi\u00e3o em que morreram todos os passageiros, entre eles a equipa de esgrima, a tripula\u00e7\u00e3o e, inclusive, cidad\u00e3os de terceiros pa\u00edses. Houve tamb\u00e9m atentados contra hot\u00e9is em que morreu um turista italiano. Foram 60 anos de resist\u00eancia com um bloqueio, o mais prolongado jamais feito a um pa\u00eds e estamos em p\u00e9 e vamos continuar de p\u00e9. Foram 11 administra\u00e7\u00f5es norte-americanas. Ainda instigaram a guerra fria e estivemos \u00e0 beira de uma guerra nuclear. Mesmo assim, com tudo isso, erradic\u00e1mos o analfabetismo, temos um bom sistema de sa\u00fade, temos escolas. Inclusivamente, nas montanhas onde s\u00f3 h\u00e1 um menino, uma crian\u00e7a, e essa escola tem painel solar, tem televis\u00e3o e tem um professor. Cri\u00e1mos universidades. t\u00ednhamos poucas universidades. Agora cada prov\u00edncia tem a sua universidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Cuba implementou nos \u00faltimos anos uma s\u00e9rie de reformas econ\u00f3micas. Como est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o atualmente?<\/p>\n\n\n\n<p>No ano passado, por exemplo, tivemos um discreto crescimento do Produto Interno Bruto de 1,2% que apesar de ser pequeno n\u00e3o deixa de ser alentador. No meio de muitos fatores adversos o comportamento da economia fecha em sinal positivo. Isto deve-se a um importante esfor\u00e7o do povo, sobretudo, na ind\u00fastria a\u00e7ucareira, no setor da agricultura e na cria\u00e7\u00e3o de gado que s\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o setores muito importantes. N\u00e3o menos relevante foi o fato de que, no meio de tantas dificuldades e de tantos fatores adversos, fossem garantidos servi\u00e7os sociais \u00e0 popula\u00e7\u00e3o como a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a cultura e o desporto. E no ano passado, Cuba concluiu com a taxa de mortalidade infantil mais baixa da sua hist\u00f3ria com 4,0 mortes por cada mil nascimentos. Estamos entre os pa\u00edses desenvolvidos. Pass\u00e1mos de 38,7 em 1970 a este valor.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas reformas adaptaram o sistema econ\u00f3mico que \u00e9 planificado \u00e0s novas realidades. Porque Cuba n\u00e3o est\u00e1 isolada, est\u00e1 inserida num mundo em que predominam as pol\u00edticas neoliberais. Todas as nossas reformas est\u00e3o dirigidas ao crescimento econ\u00f3mico e ao desenvolvimento social do pa\u00eds e n\u00e3o s\u00f3. Por exemplo, n\u00f3s temos no marco das nossas responsabilidades governamentais o interesse em desenvolver o Tarefa Vida que \u00e9 um plano para a protec\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Estamos interessados no uso mais amplo da fontes alternativas de energia. Queremos elevar o uso das energias renov\u00e1veis. Temos j\u00e1 em Cuba pain\u00e9is solares, temos turbinas e\u00f3licas e estamos a tentar usar a biomassa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso estando bloqueados h\u00e1 mais de meio s\u00e9culo pela maior pot\u00eancia mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloqueio afeta quase todos os setores da economia cubana. \u00c9 o principal ao obst\u00e1culo ao desenvolvimento do pa\u00eds. Agora, o governo dos Estados Unidos est\u00e1 a amea\u00e7ar-nos com a aplica\u00e7\u00e3o do terceiro ponto da Lei Helms-Burton. Uma amea\u00e7a dirigida a asfixiar a economia cubana com um alto custo humanit\u00e1rio para a nossa popula\u00e7\u00e3o porque de facto o que est\u00e1 a fazer \u00e9 a aprofundar o bloqueio econ\u00f3mico, financeiro e comercial contra Cuba.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Qual o significado dessa decis\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s nacionalizamos propriedades como faz qualquer Estado e querem sancionar as empresas estrangeiras que est\u00e3o a trabalhar nessas propriedades. Com esta medida, trata-se de estender de uma forma extra-territorial leis dos Estados Unidos contra as rela\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas de Cuba com parceiros de qualquer outra parte do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode haver consequ\u00eancias para as empresas portuguesas?<\/p>\n\n\n\n<p>Claro, pode haver. Apelo aos governos a que rejeitem a tentativa dos Estados Unidos de aplicar uma lei que constitui uma aberra\u00e7\u00e3o contra o direito internacional e o direito ao desenvolvimento. E \u00e9 fazer chacota da resolu\u00e7\u00e3o que se aprovou recentemente no seio da ONU contra o bloqueio.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque \u00e9 que cuba decide rever a Constitui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a \u00faltima \u00e9 de 1975 e Cuba e o mundo est\u00e3o a mudar. A sociedade cubana mudou e e observ\u00e1mos tamb\u00e9m outras experi\u00eancias nesta e noutras regi\u00f5es do mundo. E a partir das nossas caracter\u00edsticas, das nossas mudan\u00e7as, do nosso sistema propusemos as mudan\u00e7as. Tem sido um processo muito participativo, muito democr\u00e1tico. Tivemos debates populares nas f\u00e1bricas, nos locais de trabalho e nos bairros at\u00e9 dezembro, quando a nossa Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou as mudan\u00e7as. Depois, uma comiss\u00e3o recolheu os aspetos que tinham mais consenso popular e a Assembleia aprovou a proposta que vai ser agora referendada no dia 24 de fevereiro. Depois do resultado, a Constitui\u00e7\u00e3o voltar\u00e1 \u00e0 assembleia j\u00e1 depois de aprovada para aprovar as novas leis em correspond\u00eancia com o novo documento constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Como v\u00ea as \u00faltimas decis\u00f5es dos Estados Unidos sobre a Venezuela?<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o uma inger\u00eancia nos assuntos internos de outro pa\u00eds. \u00c9 um pa\u00eds apelando \u00e0 revolta, \u00e0 insubordina\u00e7\u00e3o, dentro de outro pa\u00eds e ningu\u00e9m diz nada. \u00c9 incr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um perigo real de haver um conflito regional na Am\u00e9rica Latina?<\/p>\n\n\n\n<p>As oligarquia e os Estados Unidos est\u00e3o a fazer o imposs\u00edvel para que esse perigo seja real. Nesse cen\u00e1rio, Cuba apelar\u00e1 a todas partes, a todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, &nbsp; com todas as organiza\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, a acolherem-se aos ditames da proclama\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o como territ\u00f3rio de paz, assinada em 2014, em Havana, pelos pa\u00edses pertencentes \u00e0 Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma vergonha para a Am\u00e9rica Latina, com todos os avan\u00e7os que teve nos \u00faltimos 15 anos, que se recue desta forma depois de pol\u00edticas progressistas que tiraram 60 milh\u00f5es de pessoas da pobreza. Tr\u00eas milh\u00f5es sa\u00edram do analfabetismo na Bol\u00edvia, Nicar\u00e1gua e Venezuela. Graduaram-se 20 mil m\u00e9dicos latino-americanos e caribenhos em Cuba. Devolvemos a vis\u00e3o a 2 milh\u00f5es e 900 mil pessoas com a Opera\u00e7\u00e3o Milagro.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a colabora\u00e7\u00e3o da Venezuela surgiu a Petrocaribe e n\u00e3o posso deixar de lembrar que alguns pa\u00edses do mundo e da Am\u00e9rica Latina em momentos de crise tiveram a m\u00e3o amiga de Hugo Ch\u00e1vez e do governo bolivariano da Venezuela. Acho que alcan\u00e7ar a unidade dentro da diversidade na regi\u00e3o daria condi\u00e7\u00f5es para enfrentar os desafios do futuro. \u00c9 muito dif\u00edcil agora e reitero que quando o dinheiro e os recursos n\u00e3o v\u00e3o para os bolsos de uns poucos mas para as necessidades sociais dos povos ent\u00e3o as oligarquias sabem o que fazer. N\u00f3s, cubanos, somos muito optimistas e pensamos que o bom senso tem que prevalecer na Am\u00e9rica Latina. Tudo faremos para que seja assim. E a Venezuela ter\u00e1 o nosso apoio porque n\u00f3s somos leais \u00e0queles que nos momentos de dificuldade estendem a m\u00e3o para apoiar e ajudar e porque assim dizem os princ\u00edpios da revolu\u00e7\u00e3o cubana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mercedes Martinez Vald\u00e9s \u00e9 embaixadora de Cuba em Portugal h\u00e1 ano e meio e faz o retrato hist\u00f3rico da ilha. Em 1959, as for\u00e7as rebeldes lideradas por Fidel Castro derrubaram o fascismo em Cuba e abriram caminho a uma revolu\u00e7\u00e3o que prossegue, 60 anos depois, a apenas 140 quil\u00f3metros dos Estados Unidos. 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