{"id":1463,"date":"2019-02-06T23:59:17","date_gmt":"2019-02-06T23:59:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=1463"},"modified":"2019-07-09T10:59:28","modified_gmt":"2019-07-09T10:59:28","slug":"a-luta-por-melhores-condicoes-de-trabalho-nos-supermercados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/02\/06\/a-luta-por-melhores-condicoes-de-trabalho-nos-supermercados\/","title":{"rendered":"A luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho nos supermercados"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Mais de 100 mil em Portugal, os trabalhadores das grandes superf\u00edcies comerciais debatem-se com problemas laborais que fazem deste setor um dos pior pagos do pa\u00eds.&nbsp; Os lucros de milh\u00f5es das empresas que det\u00eam os supermercados a que a maioria da popula\u00e7\u00e3o recorre regularmente n\u00e3o se refletem nos bolsos de quem trabalha. Neste muro de gan\u00e2ncia, a coragem de quem luta \u00e9 uma bandeira de dignidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Assim que souberam que Pedro Santos (nome fict\u00edcio) se recusava a trocar a folga, como a empresa dizia precisar, o respons\u00e1vel de loja no Supercor da Beloura e o diretor de recursos humanos fecharam-no no cofre do supermercado durante horas. O trabalhador alegou que era o seu dia de descanso e que tinha coisas combinadas naquele fim-de-semana com a fam\u00edlia. Encerrado, foi coagido de todas as formas. Primeiro, tentaram convenc\u00ea-lo que o iam despedir perguntando-lhe por quanto \u00e9 que se ia embora. Depois, amea\u00e7aram-no com p\u00f4-lo a fazer noites de forma permanente. E acabaram a dizer que o iam transferir para a loja mais longe de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Pedro Morais (nome fict\u00edcio) come\u00e7ou a sentir que algo de estranho se passava quando sentiu que as chefias implicavam consigo por situa\u00e7\u00f5es pelas quais n\u00e3o reagiam da mesma forma com outros colegas seus. Depois, come\u00e7ou a aperceber-se que todos os seus hor\u00e1rios eram controlados \u00e0 procura da m\u00ednima falha. N\u00e3o tardou que come\u00e7assem a chover os insultos numa falta de respeito que nunca achou ser poss\u00edvel existir contra algu\u00e9m que trabalha no El Corte Ingl\u00e9s h\u00e1 anos. Criou-se um ambiente de intrigas para desprestigiar Jo\u00e3o com mentiras que tinha quase a certeza que partiam dos seus respons\u00e1veis e acabou num isolamento em que praticamente nenhum outro trabalhador se atrevia a comunicar sem ser pelo estritamente necess\u00e1rio. O ambiente infernal deixou-o de tal forma ansioso que percebeu que precisava de pedir ajuda. Foi \u00e0 Autoridade para as Condi\u00e7\u00f5es do Trabalho, sindicalizou-se no Sindicato dos Trabalhadores do Com\u00e9rcio, Escrit\u00f3rios e Servi\u00e7os de Portugal (CESP) e percebeu que aquilo que lhe estava a acontecer era ass\u00e9dio e que \u00e9 frequente no seu local de trabalho para for\u00e7ar os trabalhadores mais antigos ao despedimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de ter uma indica\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios especialistas para ser submetida a uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, Carla Os\u00f3rio chegou ao m\u00e9dico do seguro que diz que lhe vai dar alta. Estupefacta, a trabalhadora do Continente recusa-se a assinar os pap\u00e9is apesar do pedido do profissional de sa\u00fade. Responde-lhe que n\u00e3o tem de assinar qualquer documento e o m\u00e9dico admite que tem ordens de cima para lhe dar alta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Organizar a luta<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estas s\u00e3o algumas das den\u00fancias que Elisabete Santos, Francisco Duarte e Sofia Silva receberam nos \u00faltimos tempos. Os dirigentes e delegados sindicais do CESP denunciam que h\u00e1 trabalhadores a ir de muletas para as lojas onde exercem as suas fun\u00e7\u00f5es de p\u00e9 durante oito horas resguardados dos olhares dos clientes em sec\u00e7\u00f5es como a padaria ou o talho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como trabalhadores da grande distribui\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m da falta de condi\u00e7\u00f5es, sofrem na pele tamb\u00e9m a sua condi\u00e7\u00e3o de sindicalistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTenho 25 anos de casa e estou na loja do Pingo Doce do shopping de Miraflores e vou trabalhar na primeira semana de cada m\u00eas. N\u00e3o quero perder o elo de liga\u00e7\u00e3o com os meus colegas nem com a forma\u00e7\u00f5es que v\u00e3o sendo dadas\u201d, afirma Elisabete. \u00c9 operadora de supermercado especializada na charcutaria. Sorri e diz que j\u00e1 podia ser gerente de loja. \u201cJ\u00e1 me fizeram v\u00e1rias propostas, podia ter um sal\u00e1rio melhor mas para isso queriam que deixasse o sindicato\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Distante da imagem propalada pelos principais \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social sobre os ativistas sindicais, nenhum deles abdica de trabalhar e n\u00e3o h\u00e1 qualquer vantagem pessoal para quem abra\u00e7a o sindicalismo, explicam. Francisco \u00e9 trabalhador h\u00e1 25 anos do Minipre\u00e7o e vai v\u00e1rias dias por m\u00eas ao seu local de trabalho em Campo de Ourique. O mesmo faz Sofia que \u00e9 operadora no El Corte Ingl\u00e9s desde que abriu h\u00e1 18 anos. \u201cDizem na imprensa que temos tachos e sal\u00e1rios extra e \u00e9 mentira. N\u00f3s damos a cara pelos colegas e levamos com repres\u00e1lias. N\u00e3o somos aumentados, n\u00e3o temos direito a pr\u00e9mios e ficamos estagnados. Tudo porque somos ativos sindicalmente. Contudo, posso dizer que sinto que sou muito apoiada pelos meus colegas. Quando estou na loja reconhecem no sindicato, atrav\u00e9s de mim, o que vamos conseguindo melhorar. Ainda que \u00e0s vezes pare\u00e7am coisas min\u00fasculas, eles d\u00e3o valor. Sinto-me muito acarinhada. Nem sempre \u00e9 f\u00e1cil. N\u00e3o temos um bot\u00e3o em que desligamos os problemas e vamos para casa. Tudo o que os afeta tamb\u00e9m nos afeta e muitas vezes temos de resolver problemas nas nossas folgas porque h\u00e1 um trabalhador que est\u00e1 aflito. Eu sinto-me gratificada por este trabalho sindical e pelas pequena vit\u00f3rias\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tanto a mudar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs trabalhadores dos supermercados t\u00eam hor\u00e1rios muito abrangentes. Desde as sete da manh\u00e3, muitas vezes, e estica at\u00e9 \u00e0s 22, 23 ou 24 horas\u201d, denuncia Francisco Duarte. \u201cUm casal que n\u00e3o tenha ningu\u00e9m para tomar conta dos filhos tem muitas dificuldades porque as creches fecham \u00e0s 19 ou 20. H\u00e1 uma grande dificuldade para conciliar a vida familiar e laboral. Quem trabalha num supermercado hoje em dia deixou de ter vida social\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Elisabete diz que com o banco de horas no Pingo Doce h\u00e1 horas extraordin\u00e1rias para as quais s\u00e3o avisados \u201cem cima da hora: olha faltou uma colega e vais de ficar mais duas horas. Essas horas v\u00e3o para um banco e ficam registadas no sistema e podem ser compensadas em tempo ou em dinheiro se n\u00e3o forem usadas naquele espa\u00e7o de tempo que a empresa nos d\u00e1 para gozar. O que acontece na maioria das vezes \u00e9 que algu\u00e9m vai ao sistema e apaga as horas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sofia Silva indigna-se e revela que o El Corte Ingl\u00e9s tem uma revista para os funcion\u00e1rios em que se fazem campanhas de natal e se promovem lanches na empresa em \u00e9pocas festivas para as crian\u00e7as. \u201cNos restantes dias do ano, acham que as crian\u00e7as crescem sozinhas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o dos hor\u00e1rios \u00e9, ali\u00e1s, raz\u00e3o de muitos problemas familiares. Sobretudo, quando os dois membros do casal trabalham no mesmo setor. \u201c\u00c0s vezes, as fam\u00edlias n\u00e3o se cruzam. Agora, namora-se ao telefone. Ouvimos constantemente o governo a dizer que t\u00eam de nascer mais beb\u00e9s mas devem achar que os beb\u00e9s nascem por telefone\u201d, ironiza Sofia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNestas empresas da distribui\u00e7\u00e3o\u201d, conta Elisabete, \u201cos ritmos de trabalho s\u00e3o cada vez mais acelerados, os hor\u00e1rios desregulados, todos os dias temos hor\u00e1rios diferentes. Trabalhamos de segunda a domingo e em algumas empresas existe tamb\u00e9m o trabalho nocturno. H\u00e1 gente que trabalha da meia noite \u00e0s 6 da manh\u00e3\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico dos problemas. S\u00e3o mais de 100 mil trabalhadores que em Portugal se debatem com o drama dos baixos sal\u00e1rios. O \u00faltimo acordo assinado est\u00e1 t\u00e3o desatualizado que os sete escal\u00f5es salariais da carreira destes trabalhadores j\u00e1 foram ultrapassados pelo sal\u00e1rio m\u00ednimo. Quem atinja o topo deste percurso, recebe 627 euros. \u201cEu, por exemplo, que tenho 25 anos de casa, ganho mais 50 euros que o sal\u00e1rio m\u00ednimo do que quem acaba de entrar e tenho de lhes dar forma\u00e7\u00e3o e dar-lhes todo o apoio\u201d, denuncia Elisabete Santos antes de explicar que h\u00e1 uma negocia\u00e7\u00e3o do contrato coletivo a decorrer h\u00e1 27 meses. \u201cEles mostram disponibilidade para negociar mas s\u00f3 para fazer uma pequena atualiza\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios. Na pr\u00e1tica, a maioria dos trabalhadores n\u00e3o ia ter aumentos\u201d. De acordo com a dirigente sindical, querem aumentar uma mis\u00e9ria em troca, reduzir o pagamento do trabalho extraordin\u00e1rio e a introdu\u00e7\u00e3o do banco de horas. \u201cA contrapartida que eles querem \u00e9 maior do que aquilo que eles querem dar. Querem dar-nos um chouri\u00e7o e n\u00f3s temos que dar o porco\u201d, revela.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo que diz Francisco Duarte, h\u00e1 tamb\u00e9m diferen\u00e7as entre empresas e dentro das mesmas empresas. \u201cNo Pingo Doce, o sal\u00e1rio de entrada estava cinco euros antes desta atualiza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo. O Lidl j\u00e1 anunciou que vai pagar 670 euros e no Minipre\u00e7o anda entre os 600 e os 610. Mas \u00e9 uma empresa onde h\u00e1 discrimina\u00e7\u00e3o salarial de todo o tipo. N\u00e3o se respeita que haja sal\u00e1rio igual para trabalho igual. A discrimina\u00e7\u00e3o tanto se d\u00e1 entre homens e mulheres como por gostos de quem chefia. Temos trabalhadores no topo da carreira que j\u00e1 t\u00eam oito anos de casa com sal\u00e1rios mais baixos dentro da tabela m\u00ednima que s\u00e3o os 626 e depois temos funcion\u00e1rios a ganhar mais. Estamos a falar de empresas que lucram milh\u00f5es e milh\u00f5es e n\u00e3o repartem os lucros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema das pausas \u00e9 tamb\u00e9m uma den\u00fancia frequente. Elisabete diz que h\u00e1 empresas do setor em que para se fazer uma pausa para comer fora da hora de almo\u00e7o ou para ir \u00e0 casa-de-banho se \u00e9 obrigado a compensar mais tarde quando isso faz parte do tempo de trabalho. A falta de espa\u00e7o adequado para a pausa \u00e9 tamb\u00e9m comum e levou a uma importante luta no El Corte Ingl\u00e9s. Descreve Sofia que os trabalhadores das lojas \u201cfaziam pausa para comer na casa-de-banho. Apesar de haver escrit\u00f3rios com m\u00e1quinas de caf\u00e9s, sumos e bolos ao lado, as chefias achavam que os operadores deviam comer na casa-de-banho para n\u00e3o estarem \u00e0 vista dos clientes. Fizemos uma den\u00fancia \u00e0 porta e teve impacto. Os clientes ficaram indignados com a nossa situa\u00e7\u00e3o. Conseguimos resolver uma coisa que se arrastava h\u00e1 15 anos. Agora, dentro dos armaz\u00e9ns de cada piso temos um espa\u00e7o para as nossas pausas com uma cadeira e uma mesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9, ali\u00e1s, consideram, a melhor forma de alcan\u00e7ar direitos e acabar com injusti\u00e7as que se abatem sobre os trabalhadores. Francisco d\u00e1 o exemplo das a\u00e7\u00f5es que se realizam em frente \u00e0s lojas do Minipre\u00e7o por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, onde os clientes acabam por ligar para a empresa em protesto. \u201cH\u00e1 muitos que fazem queixa e \u00e9 importante a empresa sentir a press\u00e3o dos clientes\u201d. Neste processo negocial que desenvolvem torno do acordo coletivo tem havido v\u00e1rias greves com den\u00fancias \u00e0 porta das lojas. \u00c9 a atividade sindical a melhor forma de os trabalhadores se organizarem e travarem as lutas que lhes devolvam a \u201cdignidade\u201d que estas empresas com milh\u00f5es de lucro \u201clhes roubam\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de 100 mil em Portugal, os trabalhadores das grandes superf\u00edcies comerciais debatem-se com problemas laborais que fazem deste setor um dos pior pagos do pa\u00eds.&nbsp; Os lucros de milh\u00f5es das empresas que det\u00eam os supermercados a que a maioria da popula\u00e7\u00e3o recorre regularmente n\u00e3o se refletem nos bolsos de quem trabalha. 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