{"id":1461,"date":"2019-02-06T12:15:30","date_gmt":"2019-02-06T12:15:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=1461"},"modified":"2019-02-07T12:13:00","modified_gmt":"2019-02-07T12:13:00","slug":"os-mais-pequenos-ficam-sempre-em-ultimo-a-diversidade-em-debate-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/02\/06\/os-mais-pequenos-ficam-sempre-em-ultimo-a-diversidade-em-debate-parte-1\/","title":{"rendered":"Os mais pequenos ficam sempre em \u00faltimo: A diversidade em debate (Parte 1)"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias sou frequentador ass\u00edduo de parques infantis. Numa das minhas recentes incurs\u00f5es assisti a duas crian\u00e7as a ultrapassarem outras duas na fila para o escorrega. Questionadas sobre o assunto responderam tranquilamente: Os mais pequenos ficam sempre para o fim. A sabedoria popular ensina-nos que o bar\u00f3metro de desenvolvimento de uma sociedade \u00e9 a forma como lida com os mais desprotegidos e como potencia o seu desenvolvimento. Iniciamos assim com duas interroga\u00e7\u00f5es (que n\u00e3o pretendemos responder): Que sociedade \u00e9 esta que estamos a construir e de que forma a escola contribui para esta constru\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Sem mais demora que o tempo urge, importa construirmos a consci\u00eancia coletiva de que a escola da atualidade \u00e9 a escola de massas herdada da revolu\u00e7\u00e3o industrial do s\u00e9c. XVIII. Com o objetivo de promover a mudan\u00e7a \u00e9 fundamental reconhecermos certos princ\u00edpios, considerados como verdades absolutas, que respondendo a uma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o, definem a organiza\u00e7\u00e3o escolar. S\u00e3o v\u00e1rios os princ\u00edpios espelhados na literatura que retratam esta organiza\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas s\u00e3o particularmente importantes para a compreens\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o da escola atual: a) O princ\u00edpio da organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Como em qualquer f\u00e1brica os dias na escola est\u00e3o segmentados em blocos de tempo, guiados por um manual de instru\u00e7\u00f5es, com intervalos pr\u00e9-definidos para o \u00f3cio e para o descanso. Ao toque da campainha todos os alunos mudam de tarefa e, frequentemente, de sala. \u00c0 medida que a exig\u00eancia aumenta, os professores tornam-se especialistas em determinados assuntos e, ao longo do dia, v\u00e3o andando de turma em turma e de sala em sala. b) O princ\u00edpio da conformidade. \u00c0 semelhan\u00e7a da produ\u00e7\u00e3o industrial, em que o objetivo \u00e9 produzir vers\u00f5es id\u00eanticas do mesmo produto, tamb\u00e9m a educa\u00e7\u00e3o de massas foi concebida com o objetivo de formatar os alunos com determinados requisitos\/capacidades. Os alunos que n\u00e3o demonstram as capacidades pr\u00e9-definidas s\u00e3o rejeitados pelo sistema. Esta \u00e9 a l\u00f3gica do ensino-teste para garantir a uniformidade\/conformidade dos alunos. A escola desenvolveu uma tend\u00eancia para avaliar os alunos de acordo com um padr\u00e3o \u00fanico de habilidades e todos os alunos que n\u00e3o cumpram esse padr\u00e3o s\u00e3o considerados incapazes ou como tendo dificuldades; c) O princ\u00edpio da linearidade. \u00c0 semelhan\u00e7a das etapas da produ\u00e7\u00e3o industrial tamb\u00e9m a educa\u00e7\u00e3o de massas foi desenhada como uma s\u00e9rie de etapas sequenciais em que um teste valida a etapa atual e d\u00e1 acesso \u00e0 etapa seguinte. Tipicamente os alunos s\u00e3o divididos em grupos com idades id\u00eanticas, progridem em classes definidas pela data de nascimento onde os alunos mais velhos s\u00e3o os que t\u00eam mais poder (de intimida\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>\t\u00c9 \u00e0 luz destes princ\u00edpios que percebemos a ingenuidade das crian\u00e7as na sua afirma\u00e7\u00e3o. Aproveitando os 50 anos da morte de Ant\u00f3nio S\u00e9rgio deixamos uma refer\u00eancia a um pequeno texto de uma atualidade desconcertante: \u201cQuanto a mim parece-me que os males de que nos queixamos s\u00e3o fatal\u00edssima consequ\u00eancia da estrutura da sociedade, &#8211; e que s\u00f3 portanto ter\u00e3o rem\u00e9dio se nos metermos firmemente a transformar essa estrutura, o que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel com prega\u00e7\u00f5es, nem com pol\u00edtica de autoritarismo, nem com reformas s\u00f3 pedag\u00f3gicas, &#8211; mas com reformas sociais e pedag\u00f3gicas concatenadas, entrela\u00e7adas como fios de um tecido \u00fanico, as quais preparem o nosso povo para o uso razo\u00e1vel da liberdade e para empreender por si mesmo a sua emancipa\u00e7\u00e3o social-econ\u00f3mica\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\tNeste contexto, os grupos homog\u00e9neos utilizando a idade como fator agregador, come\u00e7am a ser cada vez mais questionados. Agrupar as crian\u00e7as pela faixa et\u00e1ria \u00e9 assumir que o mais importante que as crian\u00e7as t\u00eam em comum \u00e9 a sua data de nascimento. Estes grupos conduzem frequentemente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de subgrupos e \u00e0 colagem de etiquetas em determinados alunos. Subtilmente o h\u00e1bito leva a que os alunos se identifiquem com estes r\u00f3tulos e construam a sua identidade ao redor da etiqueta. Surgem assim os grupos de alunos que t\u00eam um ritmo de trabalho lento ou demasiado r\u00e1pido, aqueles que est\u00e3o atrasados nas aprendizagens, os t\u00edmidos ou ainda aqueles que n\u00e3o acompanham os pares da mesma idade. Atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o bem-intencionada de todos estes grupos, a escola demite-se de uma das suas fun\u00e7\u00f5es, a de favorecer todas as formas poss\u00edveis de desenvolvimento rec\u00edproco pela diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\tTodos os alunos t\u00eam o direito, e a necessidade, de ver considerada a sua individualidade e, em simult\u00e2neo, de trabalhar com outros alunos com sensibilidades, estrat\u00e9gias de aprendizagens e n\u00edveis de desenvolvimento diferentes, com o objetivo de se enriquecer o coletivo pela diferen\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;\tO caminho \u00e9 o de celebrar a diversidade. Os talentos individuais assumem muitas formas e devem ser promovidos igualmente de maneiras diversas. Na pr\u00e1tica, importa perceber que todos as crian\u00e7as s\u00e3o diferentes, aprendem de maneira diferente, a um ritmo diferente que se diferencia ainda de acordo com o trabalho\/conte\u00fado\/atividade que se est\u00e1 a desenvolver. Por exemplo, uma crian\u00e7a pode estar no mesmo n\u00edvel ou num n\u00edvel mais avan\u00e7ado de desenvolvimento em determinadas atividades e com um n\u00edvel de desenvolvimento menor em outras, comparativamente a uma crian\u00e7a mais nova ou da mesma idade. Na sociedade, separar as pessoas segundo o crit\u00e9rio da idade para a constitui\u00e7\u00e3o de grupos de trabalho \u00e9 uma forma de segrega\u00e7\u00e3o que s\u00f3 acontece nas escolas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\t\u00c9 esta confronta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica com a diferen\u00e7a que conduz ao que chamamos de conflito sociocognitivo e que \u00e9 o motor do desenvolvimento e das aprendizagens. Para os mais novos, \u00e9 uma oportunidade de aprender com os mais crescidos, para estes \u00faltimos, \u00e9 uma oportunidade de saber respeitar o pr\u00f3ximo, refor\u00e7ar as suas aprendizagens, criar um espirito de entreajuda e, pela sua m\u00e3o, guiar os mais novos na apropria\u00e7\u00e3o dos instrumentos e modos de rela\u00e7\u00e3o socioculturais. Os mais novos jamais poder\u00e3o ficar para o fim. &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias sou frequentador ass\u00edduo de parques infantis. Numa das minhas recentes incurs\u00f5es assisti a duas crian\u00e7as a ultrapassarem outras duas na fila para o escorrega. Questionadas sobre o assunto responderam tranquilamente: Os mais pequenos ficam sempre para o fim. 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