{"id":10549,"date":"2026-11-06T14:53:33","date_gmt":"2026-11-06T14:53:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10549"},"modified":"2026-11-06T14:53:34","modified_gmt":"2026-11-06T14:53:34","slug":"afrocalipse-de-mario-lucio-sousa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/11\/06\/afrocalipse-de-mario-lucio-sousa\/","title":{"rendered":"Afrocal\u00edpse, de M\u00e1rio L\u00facio Sousa"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1936, atrav\u00e9s do empenho l\u00facido e combativo de dois autores cabo-verdianos, Baltazar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, come\u00e7ou a publicar-se no arquip\u00e9lago a revista <em>Claridade<\/em>, fortemente influenciada pelo neorrealismo, ent\u00e3o a dar os primeiros passos na <em>metr\u00f3pole<\/em>. O movimento cultural-ideol\u00f3gico que o neorrealismo portugu\u00eas representou, espalhar-se-ia, com maior ou menor incid\u00eancia expressiva, por todos os territ\u00f3rios do <em>imp\u00e9rio colonial<\/em> e teria influ\u00eancia determinante, atrav\u00e9s de um grupo de estudantes\/poetas que nos anos 1950 se encontrava a residir na <em>Casa dos Estudantes do Imp\u00e9rio,<\/em> nas op\u00e7\u00f5es est\u00e9tico-ideol\u00f3gicas e na luta das gera\u00e7\u00f5es que, a partir da d\u00e9cada seguinte, combateriam o poder colonial.<\/p>\n\n\n\n<p>De grande significado pol\u00edtico e cultural, para uma global tomada de consci\u00eancia das ra\u00edzes profundas, humanas e identit\u00e1rias dos povos africanos de express\u00e3o portuguesa, vivida sobretudo entre jovens intelectuais africanos, foi a publica\u00e7\u00e3o, em 1962, do ensaio <em>Tomada de Posi\u00e7\u00e3o na Literatura de Cabo Verde<\/em>, de On\u00e9simo da Silveira (nascido em S. Vicente, em 1935), no qual o autor afirma que \u201ca literatura dos seus predecessores n\u00e3o poderia conduzir a uma tomada de consci\u00eancia das realidades sociais de Cabo Verde\u201d, advogando uma literatura politicamente mais interventiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Um pa\u00eds n\u00e3o se mede pelo seu tamanho na geografia do globo, mede-se pela sua capacidade criativa, pelo seu engenho e arte de sobreviver, pelos homens e mulheres que nesse espa\u00e7o, disperso ou ex\u00edguo que seja (um arquip\u00e9lago, ao caso, disperso no Atl\u00e2ntico, na \u00c1frica imensa), nos conseguem dizer do povo que o habita, da sua singularidade, das dores e dos risos que o erguem na sua humana condi\u00e7\u00e3o de gente que sabe dos caminhos duros, desesperados, da vida, do clima agreste, do p\u00e3o escasso mas que, apesar dos pesares, canta, reflecte, escreve, pinta, pensa as formas, quase surreais, de transformar esse ch\u00e3o \u00e1rido num para\u00edso poss\u00edvel, tornando l\u00eddima a exist\u00eancia nesse espa\u00e7o rodeado de mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a independ\u00eancia de Cabo Verde, um pa\u00eds novo e a construir-se, a Literatura, nas suas v\u00e1rias vertentes, deixa pelo caminho algumas das f\u00f3rmulas da resist\u00eancia contra o colonialismo para se debru\u00e7ar sobre a nova condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de um pa\u00eds novo a querer ter, no contexto das na\u00e7\u00f5es, voz pr\u00f3pria. A nova realidade de Cabo Verde, a partir de 1975, pede novas abordagens, novas modula\u00e7\u00f5es expressivas e sint\u00e1ticas: \u00e9 preciso uma outra fala para dizer o novo, para reconstruir outro tempo e erigir <em>a liberdade<\/em> <em>que est\u00e1 a passar por ali<\/em>. No caso particular da Literatura, esse pa\u00eds, Cabo Verde, tem o sortil\u00e9gio de possuir grandes autores como Germano de Almeida, Arm\u00e9nio Vieira (Pr\u00e9mio Cam\u00f5es, em 2009) e, o mais jovem deste grupo, M\u00e1rio L\u00facio Sousa. Na m\u00fasica, o Arquip\u00e9lago possui vozes de um canto \u00fanico, no Funan\u00e1, na Coladeira, na Morna, de Ces\u00e1ria \u00c9vora, a Tito Paris, incluindo nesse lote not\u00e1vel M\u00e1rio L\u00facio Sousa, tamb\u00e9m ele cantor e compositor de grande talento.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e1rio L\u00facio Sousa, tem entre n\u00f3s publicados 6 notabil\u00edssimos romances, todos eles eivados de um p\u00edcaro modelar (j\u00e1 antes experimentado por Germano de Almeida), de forte cr\u00edtica pol\u00edtica e de um erotismo extenso e febril (espa\u00e7o em que a poesia de Arm\u00e9nio Vieira, tamb\u00e9m se notabiliza). A singularidade narrativa de M\u00e1rio L\u00facio Sousa, manifesta-se de imediato na criatividade provocat\u00f3ria dos t\u00edtulos dos seus livros: <em>O Nov\u00edssimo Testamento \u2013 E se Jesus Ressuscitasse Mulher; Biografia do L\u00edngua; O Diabo Foi Meu Padeiro; A \u00daltima Lua de Homem Grande; O Livro que me Escreveu <\/em>e o recent\u00edssimo <em>Afrocal\u00edpse.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nestes textos, para al\u00e9m das particularidade idiossincr\u00e1ticas de Cabo Verde, M\u00e1rio L\u00facio mistura um portugu\u00eas culto com o crioulo e outros fonemas de lavra sua, para nos dar uma pl\u00eaiade not\u00e1vel de sons, de vozes consonantes, de hemisf\u00e9rios l\u00fadicos exaltantes, sabendo, nesse laborat\u00f3rio, que \u00e9 poss\u00edvel tornar essa fala m\u00faltipla universal, atrav\u00e9s de um portugu\u00eas de pur\u00edssimos matizes, resson\u00e2ncias e deriva\u00e7\u00f5es, utilizando a matriz cultural que essa l\u00edngua transporta e todos os seus afluentes conexos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Afrocalipse <\/em>\u00e9, nesse torrencial imag\u00edstico da sintaxe e da fon\u00e9tica, um livro que ousa brincar com coisas s\u00e9rias: a \u00c1frica p\u00f3s-colonial, mas ainda atada, por compromissos econ\u00f3micos, e \u00e0 usura dos seus dirigentes, ao cord\u00e3o umbilical dos colonizadores. Um continente que tarda em emancipar-se, a olhar para as car\u00eancias do seu povo e a responder ao seu atraso hist\u00f3rico, cultural e econ\u00f3mico, num vasto territ\u00f3rio que possui no seu subsolo riquezas imensas que fazem a gula de todos os predadores, na Europa, nos E.U.A, na \u00c1sia.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a narrativa n\u00e3o nomeei o pa\u00eds onde a ac\u00e7\u00e3o decorre, o que ela nos revela de um ditador que se perpetua no comando por mais de 40 anos (e n\u00f3s, portugueses, j\u00e1 vivemos essa dura experi\u00eancia), <em>neutralizando os concorrentes, enriquecendo para l\u00e1 do aceit\u00e1vel \u00e0 custa da mis\u00e9ria do seu povo, <\/em>o <em>horror das guerras civis<\/em> que assolam o continente, os genoc\u00eddios, como no Ruanda, a degenera\u00e7\u00e3o social, a fome e o desgoverno que grande parte dos l\u00edderes africanos imp\u00f5em aos seus povos. Mas n\u00e3o se pense que M\u00e1rio L\u00facio de Sousa nos fala de tudo isto de modo circunspecto, s\u00e9rio e panflet\u00e1rio, pelo contr\u00e1rio, o autor, como Gabriel Garcia M\u00e1rquez de <em>Cem Anos de Solid\u00e3o, <\/em>d\u00e1-nos uma escrita soberba, po\u00e9tica, plena de humor, p\u00edcara e mordaz, dizendo-nos das safadezas do mundo (\u00c1frica, por muitos ditadores que engendre, n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 neste mundo de sabujos e t\u00edteres), com um sorriso traquinas.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Afrocal\u00edpse, de M\u00e1rio L\u00facio Sousa \u2013 Ed. D. Quixote\/2026.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1936, atrav\u00e9s do empenho l\u00facido e combativo de dois autores cabo-verdianos, Baltazar Lopes da Silva e Jorge Barbosa, come\u00e7ou a publicar-se no arquip\u00e9lago a revista Claridade, fortemente influenciada pelo neorrealismo, ent\u00e3o a dar os primeiros passos na metr\u00f3pole. 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