{"id":10437,"date":"2026-10-14T10:50:44","date_gmt":"2026-10-14T10:50:44","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10437"},"modified":"2026-10-14T11:07:53","modified_gmt":"2026-10-14T11:07:53","slug":"os-cortes-ao-cinema-estrangeiro-que-o-estado-novo-fez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/10\/14\/os-cortes-ao-cinema-estrangeiro-que-o-estado-novo-fez\/","title":{"rendered":"Os cortes ao cinema estrangeiro que o Estado Novo fez"},"content":{"rendered":"\n<p>Para comemorar os 30 anos do ANIM (Arquivo das Imagens em Movimento), a Cinemateca Portuguesa realizou uma sess\u00e3o em que exibiu <em>\u201cCinema \u2013 Alguns Cortes de Censura III\u201d<\/em>. Trata-se do terceiro filme de montagem que o realizador, montador e arquivista Manuel Mozos fez em 2014, a partir de cortes correspondentes a proibi\u00e7\u00f5es que Comiss\u00e3o de Censura (CC) do Estado Novo empreendeu aos filmes estrangeiros em Portugal de 1945 a 1974. O manancial destes cortes abrange 900 objectos f\u00edlmicos, que continuam a ser trabalhados. O que chegou at\u00e9 aos nossos dias corresponde apenas a 10% do que se julga que foi cortado pelos censores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Censores sobre a erotiza\u00e7\u00e3o feminina<\/h2>\n\n\n\n<p>Em <em>\u201cCinema \u2013 Alguns Cortes de Censura III\u201d<\/em>, os planos e cenas montados pertencem a filmes emblem\u00e1ticos &#8211; como <em>\u201cSentimento\u201d <\/em>(<em>\u201cSenso<\/em>\u201d), de Luchino Visconti (1954), <em>\u201cAt\u00e9 \u00e0 Eternidade\u201d<\/em> (<em>\u201cFrom here to eternity\u201d<\/em>), de Fred Zinnemann (1953) &#8211; e a filmes n\u00e3o identificados. A escolha foca-se num certo olhar por parte da CC em torno da postura, perfil e lugar da mulher na sociedade. Nesse sentido, vemos momentos em que a erotiza\u00e7\u00e3o, a beleza e a sensualidade femininas foram obliteradas dos respectivos filmes, em nome da \u201cboa moral\u201d e de certos valores ligados \u00e0 fam\u00edlia e patriarcado. S\u00e3o eliminados beijos, toques, actos de viol\u00eancia, rebeldia, relacionamentos ad\u00falteros e locais pouco recomendados pelos censores (clubes, cabarets, casas de jogo, etc.). A censura tamb\u00e9m visava aquilo que \u00e9 dito pelas personagens. H\u00e1 di\u00e1logos n\u00e3o traduzidos, ou onde \u00e9 clara a deturpa\u00e7\u00e3o dos mesmos na tradu\u00e7\u00e3o da legenda em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas eram as obras estrangeiras que os censores permitiam que fossem exibidas com cortes. Centenas de filmes estrangeiros foram totalmente banidos das salas. Por exemplo, estava totalmente proibida a exibi\u00e7\u00e3o de todos os que vinham do bloco sovi\u00e9tico (nem sequer passavam na alf\u00e2ndega). E n\u00e3o esque\u00e7amos que muitos filmes portugueses tamb\u00e9m sofriam cortes e outros tantos foram proibidos na \u00edntegra (sendo o \u00faltimo <em>\u201cO Mal-Amado\u201d<\/em>, de Fernando Matos Silva, 1973).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Legendas deturpadas<\/h2>\n\n\n\n<p>A censura pr\u00e9via ao cinema e ao teatro j\u00e1 acontecia antes de 1945. Por\u00e9m, n\u00e3o existem registos de como \u00e9 que se processava.<\/p>\n\n\n\n<p>As limita\u00e7\u00f5es \u00e0 liberdade de express\u00e3o eram transversais \u00e0 sociedade. O cinema era um entre tantos ve\u00edculos de controle da popula\u00e7\u00e3o. Tinha ele mesmo de ser escalpelizado ao mil\u00edmetro. O regime fascista pretendia claramente formar e formatar os espectadores com as suas instru\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas de comportamento, enunciados nas \u201cDirectrizes para uso da censura cinematogr\u00e1fica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo disto, a maioria dos distribuidores praticava auto-censura. Uma vez que lhes interessava ter p\u00fablico e lucros de bilheteira, apresentavam \u00e0 comiss\u00e3o c\u00f3pias n\u00e3o legendadas com a lista de legendas n\u00e3o traduzidas (para evitar cortes), ou fazendo eles mesmos os cortes (o que era proibido).<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quando vemos um filme, uma s\u00e9rie de televis\u00e3o, ou assistimos a uma pe\u00e7a de teatro, facilmente nos esquecemos que os nossos direitos de express\u00e3o foram conquistados a pulso \u2013 e que existiu esse tempo em que n\u00e3o nos deixavam ser livres quando nos sent\u00e1vamos numa sala de espect\u00e1culos. Usufru\u00edmos da arte, reflectimos, imaginamos e questionamos. Isso \u00e9 a liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>A realiza\u00e7\u00e3o destes filmes \u00e9 um servi\u00e7o p\u00fablico que a Cinemateca Portuguesa cumpre em nome das conquistas democr\u00e1ticas de Abril. Esperemos que sejam exibidos com frequ\u00eancia, e que outros surjam em breve.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para comemorar os 30 anos do ANIM (Arquivo das Imagens em Movimento), a Cinemateca Portuguesa realizou uma sess\u00e3o em que exibiu \u201cCinema \u2013 Alguns Cortes de Censura III\u201d. 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