{"id":10410,"date":"2026-10-14T10:26:39","date_gmt":"2026-10-14T10:26:39","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10410"},"modified":"2026-10-14T11:51:38","modified_gmt":"2026-10-14T11:51:38","slug":"um-viva-a-estes-que-tiveram-a-bondade-de-estar-realmente-connosco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/10\/14\/um-viva-a-estes-que-tiveram-a-bondade-de-estar-realmente-connosco\/","title":{"rendered":"Um viva a estes que tiveram a bondade de estar realmente connosco"},"content":{"rendered":"\n<p>Se a cidade \u00e9 este mundo de complexidades e contradi\u00e7\u00f5es, se nela nos perdemos de amor e raiva, a m\u00fasica de Jorge Palma \u00e9 a sua s\u00edntese perfeita. Trespassando o tempo, saltando de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o como um amuleto sentimental que nos liga uns aos outros. A sua discografia \u00e9 um mapa de um pa\u00eds em movimento, por vezes na apar\u00eancia da estagna\u00e7\u00e3o. Mas a sua mensagem de esperan\u00e7a, que vai superando sempre a mais profunda das tristezas, empurra-nos para a frente, como uma m\u00e3o que nos alenta, com essa ternura que nos chega nos seus dedos e na sua voz, e essa ternura n\u00e3o \u00e9 um pormenor, \u00e9, talvez, o maior impulso de uma motricidade emocional, an\u00eemica, existencial, desejada e necess\u00e1ria, em todas as esferas da vida pessoal e, claro, colectiva.<\/p>\n\n\n\n<p>A viagem de Jorge Palma na m\u00fasica portuguesa \u00e9 a sua viagem pelo pa\u00eds, da cidade ao infinito do mar, onde o tempo n\u00e3o existe para al\u00e9m daquilo que dele fazemos. S\u00e3o as hist\u00f3rias do quotidiano, da mais escura das vielas \u00e0 praia onde renascemos e regressamos \u00e0 vida, num f\u00f4lego de paz. Num \u00fanico disco conseguimos encontrar a crueldade da rua na nota mais \u00e1spera, no compasso mais inquietante, entre o rock\u2019n\u2019roll e o arpejo de Liszt; conseguimos encontrar as manh\u00e3s e a noite arrastada pela madrugada fora; conseguimos ouvir os nossos pr\u00f3prios passos e a missa dos p\u00e1ssaros; conseguimos ver a paisagem do tempo que passou e o cen\u00e1rio realista do nosso tempo de assassinos. \u00c9, talvez, a mais urbana das m\u00fasicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua biografia ficar\u00e1 cronologicamente descrita no arquivo que se come\u00e7a a formar, agora que nos deixou. Mas o retrato deste artista de que tantos de n\u00f3s dizem ter marcado indelevelmente as nossas vidas, est\u00e1 na possibilidade de nos juntarmos \u00e0quela viagem, de a tentarmos compreender. \u00c9 l\u00e1 que est\u00e1 a biografia de Jorge Palma e \u00e9 l\u00e1 que est\u00e1 o mapa do pa\u00eds que renasceu com o 25 de Abril. \u00c9 l\u00e1 que est\u00e3o as suas convic\u00e7\u00f5es, a sua interpreta\u00e7\u00e3o do mundo e as solu\u00e7\u00f5es para os dias em que o c\u00e9u n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o azul.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Jos\u00e9 Viale Moutinho morre aos 81 anos<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/viale_300cmyk-703x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10447\" width=\"703\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/viale_300cmyk-703x1024.jpg 703w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/viale_300cmyk-206x300.jpg 206w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/viale_300cmyk-768x1119.jpg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/viale_300cmyk-1055x1536.jpg 1055w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/viale_300cmyk-124x180.jpg 124w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/viale_300cmyk.jpg 1181w\" sizes=\"(max-width: 703px) 100vw, 703px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Retrato de Jos\u00e9 Viale Moutinho por \u00c1varo Siza Vieria.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Palma parte \u2014 numa daquelas concomit\u00e2ncias de cenas quotidianas que poderiam perfeitamente ser antecipadas num dos seus relatos \u2014, no mesmo dia que Jos\u00e9 Viale Moutinho, um outro enorme contista portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido no Funchal, foi primordialmente jornalista, e grande parte da vida um escritor incrivelmente prol\u00edfico: escreveu muito e em muitos g\u00e9neros, o que lhe valeu um reconhecimento traduzido em muitos galard\u00f5es e l\u00ednguas. Era um leitor cr\u00edtico e criativo de Camilo Castelo Branco, para cujas geografias continuou a olhar, a partir das lentes do rom\u00e2ntico e em debate com elas. Investigador curioso e emocionado das tens\u00f5es que mais assaltaram territ\u00f3rios cont\u00edguos \u2014 nomeadamente a Guerra Civil Espanhola \u2014, foi, podemos dizer, um homem que se serviu do seu of\u00edcio de jornalista para aprender o mais poss\u00edvel sobre os homens comuns e com eles, no centro dos livros, esculpir alternativas e esperan\u00e7as, num movimento de, ao devolver as hist\u00f3rias, recusar o fim da Hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Viale Moutinho foi um destes homens produtor do tal ingrediente motriz: a ternura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 por isso justo dizer que o seu interesse pela recupera\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica decorria de um compromisso \u00e9tico e pol\u00edtico \u2014 onde por isso ganhavam v\u00edvido recorte as viol\u00eancias e as repress\u00f5es, os conflitos e as suas consequ\u00eancias. A obra que nos deixa \u00e9 uma ferramenta de beleza e utilidade para nos conhecermos hist\u00f3rica e intimamente e assim nos sabermos pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>Partem no mesmo dias estes dois homens que, de forma \u00edmpar, fizeram do lirismo elogio \u00e0 beleza da insubmiss\u00e3o. Que saibamos sempre fazer-nos acompanhar por tudo aquilo que nos ofereceram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Palma e Jos\u00e9 Viale Moutinho: partem no mesmo dia estes homens que, de forma \u00edmpar, fizeram do lirismo elogio \u00e0 beleza da insubmiss\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":10411,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[271],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10410"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10410"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10410\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10460,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10410\/revisions\/10460"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10411"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10410"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10410"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10410"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10410"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}