{"id":10334,"date":"2026-08-31T08:48:26","date_gmt":"2026-08-31T08:48:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10334"},"modified":"2026-08-31T08:48:27","modified_gmt":"2026-08-31T08:48:27","slug":"prostituicao-e-miseria-na-lisboa-de-manuel-da-fonseca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/31\/prostituicao-e-miseria-na-lisboa-de-manuel-da-fonseca\/","title":{"rendered":"Prostitui\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria na Lisboa de Manuel da Fonseca"},"content":{"rendered":"\n<p>A colect\u00e2nea de contos de MF sobre Lisboa e a sua estrutura social, constitui-se exerc\u00edcio prop\u00edcio \u00e0 an\u00e1lise sociopol\u00edtica da cidade e da sua componente humana, sobre a popula\u00e7\u00e3o migrante, ou seja, aqueles que, vindos do pa\u00eds das leiras magras, da sardinha para tr\u00eas, da malga de couves, ou da a\u00e7orda de alhos, sonhavam encontrar na urbe o improv\u00e1vel Eldorado, tal como Manuel da Bou\u00e7a, personagem de\u00a0<em>Emigrantes,\u00a0<\/em>de Ferreira de Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00eddo do Alentejo, espa\u00e7o m\u00edtico e referencial da sua escrita \u2013 de&nbsp;<em>Cerromaior<\/em>,&nbsp;<em>Aldeia Nova<\/em>,&nbsp;<em>O Fogo e as Cinzas<\/em>&nbsp;<em>\u2013&nbsp;<\/em>Manuel da Fonseca parte \u00e0 aventura pelo corpo complexo da cidade grande, descobrindo-lhe e desnudando os seus subterr\u00e2neos h\u00famus, como acontece na cr\u00f3nica&nbsp;<em>O Vagabundo na Cidade,<\/em>&nbsp;de Fevereiro de 1968, publicada no&nbsp;<em>Rep\u00fablica,&nbsp;<\/em>que a Censura amputou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abFalar sozinho. Ir pela rua falando com ningu\u00e9m e com todos. Fazer parte do mundo, chamar o mundo para a vida. Dizer-lhe as palavras pr\u00f3prias. As palavras precisas. Certas, esclarecedoras. \u00danicas.\u00bb, dizer-lhe, afirmo eu, as suas leis rapaces de sobreviv\u00eancia, sua usura, sua sinistra forma de nos&nbsp;<em>tornar mais pequenos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 da opress\u00e3o percepcion\u00e1vel na cidade, a par da urg\u00eancia de resistir, de&nbsp;<em>dizer as palavras precisas, esclarecedoras,&nbsp;<\/em>que Fonseca nos fala<em>.&nbsp;<\/em>\u00c9 de esse deambular pela cidade, perscrutando seus abismos e feridas, que o autor descreve em 7 contos sinf\u00f3nicos (e digo&nbsp;<em>sinf\u00f3nicos<\/em>&nbsp;porque esta escrita alarga os territ\u00f3rios da l\u00edngua; inaugura uma outra forma de dizer; \u00e9 fala polif\u00f3nica, de cambiantes metaf\u00f3ricos e meton\u00edmicos m\u00faltiplos, onde o riso e a dor, a s\u00e1tira e a arg\u00facia cr\u00edtica se interpenetram em expressiva simbiose), neste livro p\u00edcaro e cruel, belo e raro que \u00e9&nbsp;<em>Um Anjo No Trap\u00e9zio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nesta s\u00e9rie de contos, Manuel da Fonseca renova a sua \u00abarte de contar\u00bb e deixa, pelo espa\u00e7o de um livro, \u00abo largo, que era o centro do mundo\u00bb, os ambientes das feiras, das tabernas onde a voz dos homens cantava o desespero mordido de uma vida \u00e0 m\u00edngua mas temperada pela dignidade de a viver de p\u00e9, de navalhas em riste dominando ventos agrestes, das suas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia, ardentes e sofridas, para penetrar a m\u00e3os ambas, calejadas pelas tempestades da sorte e do azar, o lodo que percorre as margens de Lisboa, desejando que o rio grande (as multid\u00f5es tornadas rio), libertem a cidade da ignom\u00ednia que a oprime: \u00abTejo que levas as \u00e1guas\/correndo de par em par\/lava a cidade de m\u00e1goas\/leva as m\u00e1goas para o mar\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse olhar atento e inquiridor de sombras, viajamos a cidade, sabendo-o ora magoado, ora descobrindo-lhe o p\u00edcaro por onde subtis tra\u00e7os de trag\u00e9dia oculta se insinuam, num universo de corpos que se vendem por uma c\u00f4dea de vida: \u00abPelo menos, agora vai com quem lhe apetece, e o dinheiro \u00e9 para ela. Anda bem vestida, tem casa e mesa certa. Pode at\u00e9 ser que encontre um homem que a estime\u00bb e, noutra passagem do conto que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 colect\u00e2nea, diz L\u00eddia, um dos \u201canjos no trap\u00e9zio\u201d; \u00abO Lu\u00eds, esse l\u00e1 vem trazendo a f\u00e9ria, a feriazita, ao s\u00e1bado. Coitado, est\u00e1 de aprendiz numa oficina de autom\u00f3veis. [\u2026] Encontrei-o numa aldeia, perto de Bragan\u00e7a. And\u00e1mos por a\u00ed com o circo. O Lu\u00eds fazia-nos recados e, depois, a m\u00e3e deixou-o vir connosco. Ao menos sempre come todos os dias\u00bb. Vidas pequenas, o dinheiro contado para a renda de um pequeno apartamento na Morais Soares, para a comida, um vestido, um u\u00edsque barato para entreter \u201cos clientes\u201d, entre fotos de jovens raparigas. Acontece o vazio, este abandono existencial, onde as penumbras estuam, esses labirintos brumosos da casa de L\u00eddia e No\u00e9mia.<\/p>\n\n\n\n<p>No final do conto, ou novela curta, Vasco, ao sair de madrugada da casa de L\u00eddia, ou de&nbsp;<em>Miss Bela,&nbsp;<\/em>nome de&nbsp;<em>combate<\/em>, depara-se espantado, ele que habita nos casulos de prebendas espalhados pela cidade, na Lapa, no Restelo, nas Avenidas Novas, com o estranho mundo da cidade que desperta para o trabalho a t\u00e3o matinal hora, descobrindo a fauna l\u00fagubre de uma outra cidade, que ele ignorava: \u00abFazia escuro, os candeeiros ainda estavam acesos, e os passeios cheios de homens, de mulheres e de crian\u00e7as. Todos transportavam lancheiras ou pastas, com o almo\u00e7o dentro, e uma maioria envergava casacos sobre os fatos de ganga. Vasco deu por ele a tentar adivinhar-lhes a vida. A f\u00e1brica, o escrit\u00f3rio, a loja onde trabalhavam, a casa onde residiam, a fam\u00edlia que tinham. Era como se os visse pela primeira vez. Na pra\u00e7a do Chile, atulhada de el\u00e9ctricos e de autocarros, que a multid\u00e3o assaltava, decidiu continuar a p\u00e9. Pensava em vidas incertas, desamparadas.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>No conto&nbsp;<em>O Meu Amigo Espinha,&nbsp;<\/em>a fala de Manuel da Fonseca exibe um registo mais solto, eivado de subtil humor que o autor utiliza para penetrar os subterr\u00e2neos da sobreviv\u00eancia de uma cidade onde \u00abmorremos de uma lepra confusa e desigual\u00bb, vigiada e de esperan\u00e7a minguada como era a Lisboa dos anos 1960.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A Luva,&nbsp;<\/em>segue o mesmo registo ir\u00f3nico sobre o real, estua na linguagem po\u00e9tica, de que fala Todorov, transportando-nos pelos territ\u00f3rios do discurso intimista do cronista deambulando pela cidade salazarenta, refletindo sobre as cicatrizes que ela esconde, entre a dor dos que t\u00eam&nbsp;<em>sonos sem esperan\u00e7a&nbsp;<\/em>e o&nbsp;<em>ressonado dos fartos<\/em>: \u00abPerdi-me por ruas, pra\u00e7as, e dei por mim, perto do Saldanha, a acender o \u00faltimo cigarro. Fantasmag\u00f3ricos, os candeeiros surgiam com a alta aur\u00e9ola difusa, ba\u00e7a, sumiam-se. Pressentia-se no negrume o latejar silencioso da dor e da vig\u00edlia, a inquieta\u00e7\u00e3o do sono sem esperan\u00e7a, o grande abandono ressonado dos fartos. Sobre eles, sobre mim, um perigo iminente crescia. A vida e a morte jogavam \u00e0s escondidas dentro do nevoeiro e da noite, pelas ruas da cidade.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Lisboa e as margens que a habitam, os caf\u00e9s, os lupanares, os engates esquivos, a noite inquieta da cidade, seduzem o olhar do poeta de&nbsp;<em>Rosa dos Ventos<\/em>. Essa argamassa que urde as palavras urgentes, passa indemne para as p\u00e1ginas deste livro com o qual, o autor, redefine os arqu\u00e9tipos para nos contar, n\u00e3o j\u00e1 a explora\u00e7\u00e3o dos trabalhadores nos campos alentejanos, ou a humilha\u00e7\u00e3o nas&nbsp;<em>pra\u00e7as de jorna,<\/em>&nbsp;mas as vidas agrilhoadas, a ang\u00fastia e o medo, os sil\u00eancios mordidos que pulsam, entre as paredes dos pr\u00e9dios da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte dos que ainda hoje habitam a cidade, continuam a ter vidas assim.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Um Anjo no Trap\u00e9zio, de Manuel da Fonseca \u2013 Editora Caminho.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A colect\u00e2nea de contos de MF sobre Lisboa e a sua estrutura social, constitui-se exerc\u00edcio prop\u00edcio \u00e0 an\u00e1lise sociopol\u00edtica da cidade e da sua componente humana, sobre a popula\u00e7\u00e3o migrante, ou seja, aqueles que, vindos do pa\u00eds das leiras magras, da sardinha para tr\u00eas, da malga de couves, ou da a\u00e7orda de alhos, sonhavam encontrar &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/31\/prostituicao-e-miseria-na-lisboa-de-manuel-da-fonseca\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Prostitui\u00e7\u00e3o e mis\u00e9ria na Lisboa de Manuel da Fonseca<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":10335,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48,52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10334"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10334"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10334\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10337,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10334\/revisions\/10337"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10335"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10334"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}