{"id":10326,"date":"2026-08-31T08:41:06","date_gmt":"2026-08-31T08:41:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10326"},"modified":"2026-08-31T08:59:34","modified_gmt":"2026-08-31T08:59:34","slug":"a-nossa-paixao-nao-tem-divisao-a-luta-contra-a-mercantilizacao-do-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/31\/a-nossa-paixao-nao-tem-divisao-a-luta-contra-a-mercantilizacao-do-futebol\/","title":{"rendered":"\u201cA nossa paix\u00e3o n\u00e3o tem divis\u00e3o\u201d. A luta contra a mercantiliza\u00e7\u00e3o do futebol"},"content":{"rendered":"\n<p>Na \u00e9poca 2025\/26, 19 das 33 equipas das duas ligas profissionais portuguesas tinham acionistas estrangeiros nas respetivas sociedades desportivas, em 15 casos, esses investidores detinham a maior parte do capital. O fen\u00f3meno, que h\u00e1 pouco mais de uma d\u00e9cada ainda era relativamente limitado, estendeu-se entretanto a clubes de diferentes dimens\u00f5es e regi\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O investimento n\u00e3o se concentra apenas nos chamados clubes grandes. O Moreirense, por exemplo, vendeu 70% da SAD ao fundo norte-americano Black Knight Football Club, propriet\u00e1rio do Bournemouth. No Rio Ave, 80% da SAD pertence \u00e0 empresa do grego Evangelos Marinakis, dono tamb\u00e9m do Olympiacos e do Nottingham Forest. O grupo V Sports, propriet\u00e1rio do Aston Villa, tem uma participa\u00e7\u00e3o no Vit\u00f3ria de Guimar\u00e3es e a Qatar Sports Investments, dona do Paris Saint-Germain, det\u00e9m uma fatia significativa do Sporting de Braga.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a l\u00f3gica da multipropriedade, onde um mesmo investidor ou grupo passa a controlar ou participar em v\u00e1rios clubes, criando redes que atravessam fronteiras. Em Portugal, o Grupo \u00c9lite Gesti\u00f3n y Administraci\u00f3n tornou-se, com a aquisi\u00e7\u00e3o do Tondela, propriet\u00e1rio de clubes nas ligas profissionais de Portugal e Espanha, uma vez que j\u00e1 detinha parte do Racing Club Ferrol. E a tend\u00eancia n\u00e3o ficou por a\u00ed, em julho de 2026, a Krause Group adquiriu uma participa\u00e7\u00e3o maiorit\u00e1ria no Casa Pia, passando a integrar o clube lisboeta numa plataforma internacional que inclui o Parma, de It\u00e1lia, e o Des Moines Menace, dos Estados Unidos. Em agosto, um cons\u00f3rcio internacional que inclui antigos campe\u00f5es do mundo como Thomas M\u00fcller, Mats Hummels e Lucas Hern\u00e1ndez adquiriu 90% do Estrela da Amadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Lu\u00eds Crist\u00f3v\u00e3o, investigador e comentador desportivo, a quest\u00e3o fundamental n\u00e3o est\u00e1 apenas em saber quem coloca dinheiro. Est\u00e1 em perceber quem passa a decidir e em nome de quem.\u201cEu posso ser adepto de um clube, posso identificar-me com ele, tenho a minha hist\u00f3ria com ele, mas tamb\u00e9m tenho que ter no\u00e7\u00e3o de que esse clube \u00e9 uma sociedade desportiva que pertence a um investidor e que toma decis\u00f5es do ponto de vista dos interesses desse investidor e n\u00e3o do ponto de vista dos interesses da comunidade\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente vis\u00edvel na rela\u00e7\u00e3o entre adeptos e clubes. O adepto que durante tantos anos foi s\u00f3cio, participante e parte de uma comunidade passa a ser tamb\u00e9m consumidor. Bilhetes, camisolas, plataformas de transmiss\u00e3o, patroc\u00ednios e experi\u00eancias VIP transformam a paix\u00e3o numa sucess\u00e3o de produtos. \u201cEu era s\u00f3cio e adepto de um clube, e hoje em dia sou mais tratado como um cliente. E isso \u00e9 bastante diferente\u201d, prossegue Lu\u00eds Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, esta transforma\u00e7\u00e3o cruza-se ainda com um modelo de futebol profundamente dependente da venda de jogadores. As contas dos grandes demonstram-no j\u00e1 que na \u00e9poca 2024\/25, o FC Porto obteve mais de 100 milh\u00f5es de euros com vendas de jogadores, enquanto os resultados financeiros dos tr\u00eas grandes continuam fortemente ligados ao mercado de transfer\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o, que durante d\u00e9cadas esteve ligada \u00e0s comunidades locais, tamb\u00e9m n\u00e3o escapa \u00e0 l\u00f3gica comercial. Para Lu\u00eds Crist\u00f3v\u00e3o, o que antes era uma porta aberta aos jovens da terra transformou-se progressivamente num neg\u00f3cio. \u201cHistoricamente, a forma\u00e7\u00e3o dos clubes tinha uma forte presen\u00e7a de trabalho volunt\u00e1rio, de s\u00f3cios do clube, de pessoas da comunidade. Toda essa estrutura de forma\u00e7\u00e3o desportiva foi tamb\u00e9m ela monetizada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado, diz ainda, \u00e9 uma invers\u00e3o de prioridades onde o neg\u00f3cio constante de compra e venda de jogadores \u201cfaz com que os jovens jogadores nunca tenham possibilidade de entrar no clube onde est\u00e3o a ser formados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi apenas a propriedade que mudou, mas&nbsp; o espet\u00e1culo tamb\u00e9m \u00e9 cada vez mais pensado para quem o consome \u00e0 dist\u00e2ncia, tendo em conta que os hor\u00e1rios dos jogos s\u00e3o definidos em fun\u00e7\u00e3o das transmiss\u00f5es televisivas, onde adeptos s\u00e3o for\u00e7ados a desloca\u00e7\u00f5es em horas pouco convenientes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o VAR, apesar de Lu\u00eds Crist\u00f3v\u00e3o ser favor\u00e1vel \u00e0 tecnologia, \u00e9 apresentado como exemplo dessa mudan\u00e7a. \u201cSe eu estiver no est\u00e1dio, a utiliza\u00e7\u00e3o do VAR passa-me completamente ao lado. N\u00e3o fa\u00e7o a m\u00ednima ideia do que est\u00e1 a ser observado, do que acontece. S\u00f3 quem est\u00e1 em casa a ver televis\u00e3o \u00e9 que tem uma ideia do que est\u00e1 a acontecer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A centralidade econ\u00f3mica do futebol produz um paradoxo onde o investimento pode trazer melhores jogadores, infraestruturas e capacidade competitiva, j\u00e1 que a pr\u00f3pria Liga Portugal apresenta a entrada de capital estrangeiro como uma oportunidade para profissionalizar a gest\u00e3o, melhorar o <em>scouting<\/em> e valorizar o talento produzido em Portugal, mas a mesma l\u00f3gica pode afastar o clube da comunidade que lhe deu origem. \u201cO neg\u00f3cio est\u00e1 dimensionado para a compra e venda de jogadores e n\u00e3o para a subsist\u00eancia de um representante da tua comunidade de adeptos\u201d, sublinha Lu\u00eds Crist\u00f3v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O perigo est\u00e1 no sucesso desportivo passar a justificar tudo. Um clube pode ganhar mais, subir de divis\u00e3o e chegar \u00e0s competi\u00e7\u00f5es europeias, mas, neste processo, tornar-se cada vez menos acess\u00edvel aos seus pr\u00f3prios adeptos. \u201cAquilo que vemos \u00e9 que o aparecimento dos resultados, das vit\u00f3rias que levam as equipas a jogar numa divis\u00e3o de elite e a ir a competi\u00e7\u00f5es europeias, distancia-te completamente da tua viv\u00eancia nessa equipa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Lu\u00eds, por\u00e9m, o futebol ainda n\u00e3o est\u00e1 totalmente perdido. A resist\u00eancia pode estar precisamente fora da ind\u00fastria, nos clubes populares, nas associa\u00e7\u00f5es locais e nos torneios organizados pelas pr\u00f3prias comunidades. D\u00e1 o exemplo de um torneio popular de futsal recuperado este ano em Santa Cruz, depois de cerca de 15 anos sem se realizar, em que, durante uma semana, o recinto se encheu para ver amigos, vizinhos e conhecidos a jogar. \u201cVais ver pessoas que tu conheces a jogar e est\u00e1s ali a conviver. Tens essa dimens\u00e3o de lazer e de festa que, obviamente, no futebol profissional j\u00e1 n\u00e3o existe.\u201d \u00c9 a\u00ed que poder\u00e1 estar uma das \u00faltimas fronteiras de um futebol que ainda n\u00e3o seja apenas neg\u00f3cio. Na possibilidade de jogar, assistir e participar sem que um gesto tenha de ser convertido em receita. Num pa\u00eds onde cada vez mais clubes entram em redes internacionais e onde investidores compram participa\u00e7\u00e3o em v\u00e1rios emblemas, a pergunta deixa de ser apenas quem ganha o campeonato.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Claques contra as SAD<\/h2>\n\n\n\n<p>A perda de influ\u00eancia dos adeptos n\u00e3o acontece apenas quando um investidor passa a controlar a maioria do capital de uma SAD, mas a mudan\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m sentida na rela\u00e7\u00e3o quotidiana com o clube. Jo\u00e3o Sousa, ex-dirigente da claque Bracara Legion, que acompanha esta transforma\u00e7\u00e3o no futebol h\u00e1 v\u00e1rios anos, considera que a entrada de acionistas maiorit\u00e1rios marcou um ponto de viragem dos clubes. &#8220;Enquanto associa\u00e7\u00f5es, deixam de mandar no futebol profissional e a\u00ed, sim, os adeptos perdem real influ\u00eancia e o futebol perde a sua democracia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A profissionaliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o, que inicialmente poderia ser vista como uma resposta aos problemas financeiros dos clubes, acabou por alterar a sua pr\u00f3pria natureza e as suas bases sociais. \u201cA financiariza\u00e7\u00e3o do futebol e a mercantiliza\u00e7\u00e3o fez com que os clubes perdessem identidade e fez com que os adeptos perdessem o poder\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente vis\u00edvel na forma como o adepto \u00e9 encarado. De associado e participante nas decis\u00f5es do clube, passou progressivamente a ser visto como fonte de receita. \u201cO jogador \u00e9 um ativo financeiro e o adepto \u00e9 um gerador de receita. \u00c9 algu\u00e9m que existe para consumir, para comprar o lugar anual, para pagar a mensalidade, para comprar o merchandising\u201d, resume Jo\u00e3o Sousa.<\/p>\n\n\n\n<p>Este distanciamento n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f3mico, tamb\u00e9m a dimens\u00e3o humana foi-se perdendo. Treinos que antes eram espa\u00e7os de contacto direto com jogadores e dirigentes tornaram-se momentos cada vez mais fechados e cada vez mais o futebol passou a ser acompanhado atrav\u00e9s dos ecr\u00e3s e redes sociais, enquanto o jogador se transformou numa figura distante. \u201cHoje, o jogador \u00e9 quase uma figura mitol\u00f3gica, a quem s\u00f3 nos aproximamos para pedir uma selfie\u201d, reflete o ex-dirigente.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o mesmo, esta mudan\u00e7a amea\u00e7a sobretudo os setores populares que historicamente deram vida \u00e0s bancadas. O aumento dos pre\u00e7os, os custos associados a uma ida ao est\u00e1dio e a pr\u00f3pria forma como os adeptos s\u00e3o tratados contribuem para afastar fam\u00edlias e comunidades. \u201cA tend\u00eancia \u00e9 de um afastamento cada vez maior, que vai fazer com que as camadas populares das cidades se afastem dos est\u00e1dios, e estes se tornem de clientes e turistas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">David contra Golias. O caso do Belenenses<\/h2>\n\n\n\n<p>A batalha interna no Belenenses foi um dos exemplos mais paradigm\u00e1ticos da mercantiliza\u00e7\u00e3o do futebol a reboque das SAD e a luta dos s\u00f3cios derrotou o principal investidor mas atirou o clube para a \u00faltima divis\u00e3o do futebol amador. Em 2012, a Codecity, encabe\u00e7ada por Rui Pedro Soares, adquiriu a maioria do capital social da SAD do clube fundado em 1919, abrindo uma batalha com os adeptos. S\u00f3cio do Clube de Futebol Os Belenenses, Edgar Macedo recorda que a abordagem inicial foi a habitual. \u201cNa altura, j\u00e1 existia a figura do investidor e j\u00e1 se come\u00e7ava a falar de investidores no futebol, mas era uma coisa ainda relativamente nova, e a receita que cozinhou a entrada desse investidor foi um modus operandi que se verificou depois e que foi sendo aplicada de forma muito id\u00eantica nos mais diversos emblemas\u201d, descreve. \u201cH\u00e1 um clube que est\u00e1 vulner\u00e1vel do ponto de vista financeiro e do ponto de vista competitivo. Surge um investidor com muitas promessas, com um discurso que apesar de muito simples consegue tocar os adeptos, porque refere que se n\u00e3o \u00e9 s\u00f3cio vai meter-se s\u00f3cio no dia seguinte, e que apaixonou-se ou pelo est\u00e1dio, ou pelo emblema, ou pelo s\u00edmbolo, ou pela hist\u00f3ria, e facilmente lhe \u00e9 estendida uma passadeira vermelha para entrar na sociedade desportiva de um clube\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o caso do Belenenses e de tantos outros. Edgar Macedo recorda que houve uma esp\u00e9cie de \u201clua de mel\u201d at\u00e9 que \u201cinevitavelmente\u201d come\u00e7aram a surgir os choques com a dimens\u00e3o associativa do clube. O primeiro caso foi logo em 2014 com a equipa t\u00e9cnica a deixar de fora de um jogo com o Benfica dois dos principais jogadores do Belenenses. O esc\u00e2ndalo obrigou a dire\u00e7\u00e3o do clube a reconhecer que n\u00e3o sabia das decis\u00f5es tomadas pela SAD e que a figura do administrador do clube na estrutura da SAD n\u00e3o tinha qualquer peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos \u00eaxitos desportivos, com o Belenenses a participar nas competi\u00e7\u00f5es europeias, a revolta dos s\u00f3cios crescia com diferentes epis\u00f3dios em que a Codecity virava costas ao clube nas suas escolhas relativas ao futebol profissional. At\u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o se tornou irrevers\u00edvel. Mandatado pelos s\u00f3cios, a dire\u00e7\u00e3o do clube rompeu com a SAD. \u201cAconteceu aquilo que eu n\u00e3o vou dizer que \u00e9 \u00fanico no mundo, porque certamente j\u00e1 poder\u00e3o ter existido casos iguais, mas \u00e9 muito pouco comum, que \u00e9 n\u00e3o existir uma situa\u00e7\u00e3o de um clube que faliu e vai come\u00e7ar de novo, mas de um clube que est\u00e1 na primeira divis\u00e3o e os s\u00f3cios escolhem ir para a \u00faltima divis\u00e3o distrital. Preferem ir para a \u00faltima divis\u00e3o distrital do que estar na primeira divis\u00e3o amarrado sob aquela estrutura e d\u00e1 para perceber qu\u00e3o longe foram os limites da paci\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da \u00faltima divis\u00e3o, o Belenenses subiu a pulso com o apoio dos s\u00f3cios naquilo que Edgar Macedo chama \u201crenascimento\u201d. \u201cQuando ouves aquelas ideias de que \u00e9 preciso investir no marketing, na comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso vir uma empresa, na verdade, o que eu assisti foi verdadeiramente \u00e0quela ideia do \u2018fa\u00e7amos por nossas m\u00e3os o que a n\u00f3s diz respeito\u2019\u201d. O c\u00e2ntico \u201ca nossa paix\u00e3o n\u00e3o tem divis\u00e3o\u201d passou a ecoar por todos os est\u00e1dios por onde passou o clube. \u201c\u00c9 uma frase que s\u00f3 consegue ser criada pelos adeptos porque \u00e9 algo que vem do sentimento dos adeptos. Pessoas que n\u00e3o iam ao Est\u00e1dio do Restelo h\u00e1 anos voltaram, pessoas que n\u00e3o eram sequer do eolenenses juntaram-se em nome de uma ideia e, no fundo, isto vai tudo desaguar naquela ideia do que \u00e9 a ess\u00eancia de um clube. O que \u00e9 de facto um clube? Porque tu podes ter muito dinheiro e teres uma equipa de futebol e a equipa de futebol at\u00e9 ter sucesso e estar na primeira divis\u00e3o, mas n\u00e3o tens um clube porque n\u00e3o tens os adeptos\u201d, defende. \u201cO que eu vi ali, durante aqueles anos, foi a demonstra\u00e7\u00e3o cabal de que outro futebol existe, outro futebol \u00e9 poss\u00edvel e s\u00f3 depende de n\u00f3s torn\u00e1-lo uma realidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Edgar Macedo defende o fim da obrigatoriedade de ter de se constituir enquanto sociedade desportiva para competir numa competi\u00e7\u00e3o profissional. \u201cO que acontece em Portugal \u00e9 bizarro. Tu podes ser uma associa\u00e7\u00e3o desportiva sem fins lucrativos, com imenso sucesso, vais desde a \u00faltima distrital at\u00e9 \u00e0 Liga 3 a ganhar os jogos todos, com os est\u00e1dios cheios, s\u00f3 com vit\u00f3rias, mas depois sobes \u00e0 Liga 2 e dizem que, mas para competir ali, tens de ser uma sociedade desportiva, tens de ser uma empresa\u201d. Por isso, \u00e9 um dos muitos adeptos que consideram que esta \u00e9 uma interfer\u00eancia no livre associativismo. \u201cPorque um clube \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o desportiva, vive dos seus s\u00f3cios, n\u00e3o tem fins lucrativos, tem m\u00e9rito desportivo, mas n\u00e3o pode competir numa competi\u00e7\u00e3o profissional. Isto \u00e9 inaceit\u00e1vel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O descr\u00e9dito da FIFA<\/h2>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2025, o mundo olhou com assombro para a cria\u00e7\u00e3o e atribui\u00e7\u00e3o, por parte de Gianni Infantino, presidente da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Futebol Associado (FIFA), do Pr\u00e9mio da Paz entregue em m\u00e3os a Donald Trump. A rela\u00e7\u00e3o do l\u00edder da FIFA com o presidente dos Estados Unidos foi novamente contestada durante o Mundial realizado nos pa\u00edses da Am\u00e9rica do Norte quando o pr\u00f3prio Trump admitiu publicamente ter pressionado a organiza\u00e7\u00e3o a retirar um cart\u00e3o vermelho ao avan\u00e7ado norte-americano Folarin Balogun, o que a FIFA acabou por fazer. Depois de o maior evento de futebol do mundo ter acabado, descobriu-se que Infantino tentara criar uma empresa subsidi\u00e1ria da federa\u00e7\u00e3o chamada FIFA Forward Enterprise, com o objetivo de distribuir a organiza\u00e7\u00e3o e os direitos dos grandes campeonatos para as m\u00e3os de investidores privados. Entre os potenciais investidores estavam Joshua Kushner, irm\u00e3o do genro de Donald Trump.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Irlan Sim\u00f5es, autor do livro \u201cA produ\u00e7\u00e3o do Clube: Poder, Neg\u00f3cio e Comunidade no Futebol\u201d, o futebol \u201csempre foi colonizado por interesses\u201d. Contudo, d\u00e1-se uma viragem a partir dos anos 70 e 80. O colunista dos meios brasileiros Reda\u00e7\u00e3o Sportv e GloboEsporte.com explica que vivemos tempos \u201cpreocupantes\u201d. Muitos elementos do que se entende por futebol \u201cs\u00e3o descartados e colocados em segundo plano para favorecer interesses econ\u00f3micos\u201d, defende. \u201cUm exemplo muito forte para ilustrar essas transforma\u00e7\u00f5es \u00e9 o caso da pausa de hidrata\u00e7\u00e3o na Copa do Mundo. Acho que \u00e9 uma ilustra\u00e7\u00e3o perfeita de como esses interesses econ\u00f3micos podem alterar a pr\u00f3pria ess\u00eancia do jogo. Criou-se um intervalo no meio do primeiro tempo e do segundo tempo com um argumento pat\u00e9tico, mas com um interesse por tr\u00e1s muito grande: a venda de maiores pacotes publicit\u00e1rios, isso est\u00e1 muito \u00f3bvio\u201d. O tamb\u00e9m adepto do Esporte Clube Vit\u00f3ria explica que apesar de tudo h\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1tica em pa\u00edses como Portugal, Argentina e Alemanha, onde h\u00e1 \u201cuma participa\u00e7\u00e3o muito mais ampla\u201d do que no Brasil. A fraca participa\u00e7\u00e3o dos s\u00f3cios no Brasil fez com que a resist\u00eancia \u00e0s SAP (sigla alem\u00e3 para Sistemas, Aplica\u00e7\u00f5es e Produtos no Processamento de Dados), as SAD brasileiras, fosse \u201cmuito baixa\u201d. Para al\u00e9m disso, critica o facto de haver jogadores com mais dinheiro que alguns clubes porque isso gera \u201cmuitas contradi\u00e7\u00f5es\u201d. \u201cH\u00e1 jogadores hoje que se acham mais importantes que o pr\u00f3prio futebol\u201d, alerta.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas bancadas, continuam os cachec\u00f3is, as m\u00fasicas e as liga\u00e7\u00f5es constru\u00eddas durante d\u00e9cadas entre clubes e adeptos, mas, por detr\u00e1s do jogo, cresce uma realidade diferente, com sociedades an\u00f3nimas desportivas (SAD), fundos de investimento, grupos empresariais e redes internacionais de clubes que olham para o futebol como um ativo financeiro.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":10327,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71,260],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10326"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10326"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10357,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10326\/revisions\/10357"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10327"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10326"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}