{"id":10309,"date":"2026-08-31T08:15:31","date_gmt":"2026-08-31T08:15:31","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10309"},"modified":"2026-08-31T09:01:31","modified_gmt":"2026-08-31T09:01:31","slug":"a-creche-como-inicio-do-percurso-educativo-na-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/31\/a-creche-como-inicio-do-percurso-educativo-na-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"A creche como in\u00edcio do percurso educativo n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando o Jan Amos Comenius pensou o seu projeto educacional que implicava que absolutamente tudo tinha que ser disponibilizado a absolutamente todos, o mundo ainda era bem diferente do que \u00e9 hoje. Escrev\u00edamos o ano de 1640 na era Crist\u00e3. A proposta dele parecia simples: 6 anos de educa\u00e7\u00e3o materna, 6 anos de escola na l\u00edngua materna, 6 anos de escola na l\u00edngua do Saber (ent\u00e3o ainda o Latim) e pelo menos 4 anos de forma\u00e7\u00e3o para a profiss\u00e3o. Com o evoluir dos tempos e das ideias, os 6 anos maternos seriam hoje 6 anos de educa\u00e7\u00e3o familiar fora da escola, antes da escola. Contudo, a proposta parece surpreendentemente atual, quando olhamos para muitos sistemas educativos.<\/p>\n\n\n\n<p>No tempo de Comenius, as fam\u00edlias com maiores recursos recorriam a amas. Os primeiros humanistas ainda n\u00e3o consideravam as crian\u00e7as como seres pensantes. Quem entregava as crian\u00e7as \u00e0s amas, estava ainda convicto que se tratava unicamente de assegurar os cuidados b\u00e1sicos. Mas tal como acontece hoje, a maioria das fam\u00edlias n\u00e3o tinham outra alternativa sen\u00e3o trabalhar para garantir a sua subsist\u00eancia. Levavam as crian\u00e7as consigo ou encontravam no seio da fam\u00edlia outras formas de assegurar os seus cuidados. Esta realidade, marcada pela dificuldade em conciliar a vida profissional com o cuidado das crian\u00e7as, contribuiu gradualmente para a institucionaliza\u00e7\u00e3o da primeira inf\u00e2ncia e para o surgimento dos chamados \u00abdep\u00f3sitos de crian\u00e7as\u00bb. Os seis anos de educa\u00e7\u00e3o materna pareciam uma miragem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos finais do s\u00e9culo XIX, as propostas de Friedrich Fr\u00f6bel deram uma nova for\u00e7a \u00e0 ideia de Comenius. Ele considerava que as crian\u00e7as mais novas tinham necessidade de educa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o somente de guarda. Pondo em pr\u00e1tica um jardim-de-inf\u00e2ncia, idealizou um espa\u00e7o l\u00fadico, onde crian\u00e7as iam intencionalmente desenvolver destrezas, brincando.<\/p>\n\n\n\n<p>Avan\u00e7ou-se um pouco. Crian\u00e7as s\u00e3o seres pensantes, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e1buas rasas. Mas s\u00f3 depois de adquirir a fala? Afinal, o que fazem os b\u00e9b\u00e9s no berc\u00e1rio, pergunta Paulo Fochi no seu admir\u00e1vel livro. \u00c9 verdade, os Jardins de inf\u00e2ncia, hoje com o nome oficial de pr\u00e9-escolar, foram integradas nos sistemas educativos. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que durante muito tempo, a creche continuou a ser vista como uma resposta social: um espa\u00e7o de acolhimento, prote\u00e7\u00e3o e apoio \u00e0s fam\u00edlias. As institui\u00e7\u00f5es que acolhem as crian\u00e7as at\u00e9 terem 3 anos reportam ainda hoje \u00e0 Seguran\u00e7a Social. Embora a dimens\u00e3o de acolhimento e prote\u00e7\u00e3o continue a ser importante, torna-se hoje cada vez mais necess\u00e1rio afirmar com clareza a creche como sendo uma resposta eminentemente educativa. Cada vez mais existem orienta\u00e7\u00f5es emanadas dos sectores educativos. Tamb\u00e9m foi assim em Portugal. Temos hoje ao lado das orienta\u00e7\u00f5es curriculares para o pr\u00e9-escolar, as orienta\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas para a creche.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 j\u00e1 muito que n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio este olhar educativo intencional era claro. Mais do que uma vez se argumentou, tamb\u00e9m em actos oficiais, que a creche obrigava a um trabalho educativo, que a creche n\u00e3o era simplesmente um ambiente para manter as crian\u00e7as seguras. Significa construir contextos ricos em rela\u00e7\u00f5es, experi\u00eancias e oportunidades de aprendizagem, respeitando cada crian\u00e7a como sujeito de direitos, competente, participativo e capaz de atribuir significado \u00e0s experi\u00eancias que vive desde o nascimento.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, a publica\u00e7\u00e3o das orienta\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas para creche assume especial relev\u00e2ncia. Reconhece-se, agora tamb\u00e9m oficialmente, a creche como o in\u00edcio de um percurso pedag\u00f3gico cont\u00ednuo, integrado e intencional.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 t\u00ednhamos assumido a creche como parte central do projeto educativo da institui\u00e7\u00e3o. As crian\u00e7as devem poder viver as suas experi\u00eancias pr\u00f3prias desde o nascimento. Nesta perspetiva, educar na creche n\u00e3o se limita \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas, nem se reduz \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o para etapas seguintes. Eis o perigo eminente da institucionaliza\u00e7\u00e3o dos sistemas educativos sempre que orienta\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas se tornem curriculares. Existe o risco de somente trabalhar em fun\u00e7\u00e3o do que vem a seguir. Se o termo jardim-de-inf\u00e2ncia parecia datado para muitos, o termo pr\u00e9-escolar pode induzir \u00e0 perce\u00e7\u00e3o errada que nesta fase se trata de preparar as crian\u00e7as para a escola. A perspetiva assumida n\u2019 A Voz do Oper\u00e1rio \u00e9 diferente. A inf\u00e2ncia tem valor pr\u00f3prio. Cada etapa constitui um tempo pleno de vida, de descobertas, de rela\u00e7\u00f5es e de aprendizagens significativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o projeto educativo d\u2019 A Voz do Oper\u00e1rio trata-se de construir contextos de rela\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o, bem-estar e aprendizagem, nos quais a crian\u00e7a se desenvolve em intera\u00e7\u00e3o com os outros, com os espa\u00e7os, com os materiais e com a cultura que a rodeia e nos quais, logo que surgem, as orienta\u00e7\u00f5es curriculares se integram.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande contributo da creche para a identidade institucional est\u00e1, justamente, em tornar vis\u00edvel que cuidar e educar s\u00e3o dimens\u00f5es insepar\u00e1veis da mesma a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica. Os momentos de acolhimento, alimenta\u00e7\u00e3o, higiene, repouso, brincadeira e transi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o interrup\u00e7\u00f5es do processo educativo; s\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, ocasi\u00f5es fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o de v\u00ednculos, para a seguran\u00e7a emocional, para a autonomia progressiva e para o desenvolvimento da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando pensada pedagogicamente, a rotina deixa de ser uma mera organiza\u00e7\u00e3o do tempo e transforma-se numa estrutura educativa, capaz de oferecer previsibilidade, confian\u00e7a e respeito pelos ritmos de cada crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspeto decisivo \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o do brincar, da explora\u00e7\u00e3o sensorial, do movimento e da observa\u00e7\u00e3o atenta como eixos centrais do trabalho em creche. Isto exige profissionais capazes de escutar os sinais das crian\u00e7as, documentar processos, interpretar interesses e organizar ambientes educativos ricos em possibilidades, construindo propostas que respeitem os seus interesses, necessidades e potencialidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A qualidade educativa da creche resulta sempre de um trabalho coletivo. Os auxiliares de a\u00e7\u00e3o educativa s\u00e3o igualmente agentes educativos fundamentais. O seu contacto di\u00e1rio com as crian\u00e7as, nos momentos de cuidado, de brincadeira, de alimenta\u00e7\u00e3o, de repouso ou de acolhimento, contribui decisivamente para a constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a, seguran\u00e7a e bem-estar, integrando plenamente a a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da equipa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os t\u00e9cnicos especializados enriquecem a qualidade do trabalho em creche atrav\u00e9s da preven\u00e7\u00e3o, do acompanhamento das crian\u00e7as e das fam\u00edlias e do apoio permanente \u00e0s equipas. A diversidade de saberes permite compreender cada crian\u00e7a na sua singularidade e responder de forma integrada \u00e0s diferentes necessidades que surgem ao longo do percurso educativo.<\/p>\n\n\n\n<p>A creche n\u00e3o \u00e9 uma etapa menor ou preliminar n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. \u00c9 um territ\u00f3rio pedag\u00f3gico pr\u00f3prio, com especificidades que devem ser reconhecidas, valorizadas e integradas no projeto comum da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, a creche ocupa um lugar estrat\u00e9gico na constru\u00e7\u00e3o da continuidade do percurso educativo dos 0 aos 12 anos. Importa torn\u00e1-la cada vez mais vis\u00edvel no projeto educativo, porque isso ajuda a evitar ruturas entre ber\u00e7\u00e1rio, creche, jardim de inf\u00e2ncia e ciclos seguintes, favorecendo transi\u00e7\u00f5es mais humanizadas e coerentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a institui\u00e7\u00e3o assume a continuidade entre val\u00eancias como compromisso pedag\u00f3gico, ela refor\u00e7a a ideia de que cada etapa tem valor em si mesma, mas que tamb\u00e9m faz parte de um percurso mais amplo, constru\u00eddo com intencionalidade, colabora\u00e7\u00e3o e sentido de conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p>A creche convoca tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o especialmente pr\u00f3xima com as fam\u00edlias. Nesta etapa, a confian\u00e7a, o di\u00e1logo e a corresponsabiliza\u00e7\u00e3o tornam-se ainda mais essenciais, sem confus\u00e3o de pap\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p>A parceria com as fam\u00edlias fortalece a a\u00e7\u00e3o educativa quando assenta numa comunica\u00e7\u00e3o clara, no acolhimento e no respeito m\u00fatuo, reconhecendo que educar crian\u00e7as pequenas \u00e9 uma tarefa relacional e coletiva. Do mesmo modo, o papel dos profissionais n\u00e3o docentes, a reflex\u00e3o conjunta das equipas e a documenta\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica precisam de ser valorizados como partes integrantes da qualidade educativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Refor\u00e7ar o lugar da creche no projeto educativo \u00e9, portanto, mais do que acrescentar uma val\u00eancia ao discurso institucional. \u00c9 afirmar uma conce\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o que come\u00e7a no nascimento, que reconhece a pot\u00eancia da primeira inf\u00e2ncia e que entende a institui\u00e7\u00e3o como espa\u00e7o de continuidade, participa\u00e7\u00e3o e desenvolvimento humano. Ao faz\u00ea-lo, A Voz do Oper\u00e1rio fortalece a sua identidade pedag\u00f3gica e reafirma que a creche \u00e9, plenamente, educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Investir na creche \u00e9 investir na inf\u00e2ncia. E investir na inf\u00e2ncia \u00e9 investir numa sociedade mais justa, mais democr\u00e1tica, mais solid\u00e1ria e mais humana. \u00c9 acreditar que a educa\u00e7\u00e3o come\u00e7a no nascimento e que toda a comunidade educativa \u2014 profissionais, fam\u00edlias e institui\u00e7\u00e3o \u2014 partilham a responsabilidade de construir, desde os primeiros meses de vida, percursos educativos ricos em significado, participa\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta convic\u00e7\u00e3o acompanha A Voz do Oper\u00e1rio desde as suas origens e continua hoje a orientar o seu projeto educativo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A creche n\u00e3o \u00e9 uma etapa menor ou preliminar n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. \u00c9 um territ\u00f3rio pedag\u00f3gico pr\u00f3prio, com especificidades que devem ser reconhecidas, valorizadas e integradas no projeto comum da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":175,"featured_media":10310,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[269,111],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10309"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/175"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10309"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10309\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10363,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10309\/revisions\/10363"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10310"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10309"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}