{"id":10268,"date":"2026-08-02T20:53:33","date_gmt":"2026-08-02T20:53:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10268"},"modified":"2026-08-02T20:53:34","modified_gmt":"2026-08-02T20:53:34","slug":"o-isolamento-em-ferias-de-o-cume","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/02\/o-isolamento-em-ferias-de-o-cume\/","title":{"rendered":"O isolamento em f\u00e9rias de \u201cO Cume\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Foram muitas as pe\u00e7as que a 43\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Almada trouxe a teatros, escolas e espa\u00e7os exteriores da cidade da margem sul do Tejo. Companhias de todo o mundo revelaram, ao longo de duas semanas, uma vasta e diversificada amplitude de tem\u00e1ticas, t\u00e9cnicas e abordagens. Houve tamb\u00e9m a reposi\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as que podem ter passado despercebidas por c\u00e1 &#8211; como \u201cHappy Days, com encena\u00e7\u00e3o de Miguel Seabra e a extraordin\u00e1ria interpreta\u00e7\u00e3o de M\u00f3nica Garnel. Em todas, o diapas\u00e3o alinhou pela qualidade. \u00c9 uma boa forma de fechar a temporada teatral e ir a banhos: esta imers\u00e3o naquilo que a arte dram\u00e1tica anda a pensar e a trabalhar. Quem nunca o fez, que guarde j\u00e1 parte do m\u00eas de Julho do pr\u00f3ximo ano para esta imers\u00e3o de criatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLe Sommet\u201d,<strong>&nbsp;<\/strong>da companhia su\u00ed\u00e7a Th\u00e9\u00e2tre Vidy-Lausanne, foi um dos destaques. \u201cO Cume\u201d, na tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, deixa muitos pontos de interroga\u00e7\u00e3o no espectador. O cen\u00e1rio \u00e9 avassalador e detalhado. S\u00e3o seis as personagens deste lugar no topo do que parece ser uma est\u00e2ncia de esqui. Alguma coisa aconteceu. Estamos j\u00e1 a viver ao retardador as consequ\u00eancias dos bloqueios que impede as desloca\u00e7\u00f5es. Neste aparatoso espa\u00e7o cenogr\u00e1fico, um elevador, que, regra geral, serve para fazer circular objectos e comida traz o sexteto de diversas faixas et\u00e1rias. Estes hospedados, inicialmente estranhos, cumprem j\u00e1 uma rotina que os aproximou. T\u00eam de lidar juntos com um isolamento que desconhecem quando vai terminar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O babel lingu\u00edstico n\u00e3o impede a uni\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 qualquer coisa que nos recorda os tempos da pandemia. Estas pessoas t\u00eam de conviver com a incerteza do regresso a uma situa\u00e7\u00e3o normal. S\u00e3o as l\u00ednguas de cada um, que nem todos compreendem, que demarcam as suas origens europeias. Algu\u00e9m fala alem\u00e3o, uma rapariga domina o italiano, um homem tem um vincado sotaque brit\u00e2nico, e uma senhora faz quest\u00e3o de falar em franc\u00eas. Para o experiente encenador Christoph Marthaler, este babel lingu\u00edstico tem um ch\u00e3o comum de linguagem baseado em sons onomatopeicos, que todos v\u00e3o lendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como colectivo, os seis funcionam, ainda que existam diverg\u00eancias ao n\u00edvel desses \u201cproblemas de tradu\u00e7\u00e3o\u201d. Como grupo, encontram formas de se divertir, mesmo que, vistas de fora, pare\u00e7am rid\u00edculas. O humor negro f\u00e1-los sobreviver mentalmente, uma vez que fisicamente recebem kits com comida e bebida.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo ar, chegam ru\u00eddos ensurdecedores de helic\u00f3pteros, que d\u00e3o falsas esperan\u00e7as de um eventual salvamento. Apenas deixam artigos que antecipam o que pode ser o desfecho. A certa altura, uma janela abre-se no telhado. Atiram extintores que todos se p\u00f5em a encher. Porqu\u00ea: no s\u00edtio onde est\u00e3o o ar \u00e9 rarefeito. O oxig\u00e9nio tem de ser gerido. O que eles fazem \u00e9 encher esta esp\u00e9cie de bal\u00f5es que servir\u00e3o para um momento dr\u00e1stico. S\u00e3o ideias de cenografia e dramaturgia que sugerem a gravidade em que as personagens se encontram.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00e2nico vai sendo suplantando. Ali\u00e1s, nunca \u00e9 sentido, uma vez que. O aviso de que a situa\u00e7\u00e3o ir\u00e1 manter-se por mais 15 ou 18 anos \u00e9 escutado por todos. A condena\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o atroz que s\u00f3 a leveza pode ajudar a resistir. Os seis est\u00e3o unidos. Prova disso \u00e9 a leitura partilhada que, no final, fazem em voz alta de testemunhos que, longo dos anos, os que ali estiveram foram escrevendo. Um desses testemunhos foi escrito nessa manh\u00e3. Pode ter sido qualquer um deles. Podem ter sido todos. A uni\u00e3o potencializa a for\u00e7a &#8211; contra o desespero e a depress\u00e3o. Uma grande pe\u00e7a: o cume inventivo do que pode ser o aproveitamento metaf\u00f3rico, dram\u00e1tico e cenogr\u00e1fico de um acidente fatal. Uma sugest\u00e3o que inquieta e nos estimula para ver mais teatro ao longo do ano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram muitas as pe\u00e7as que a 43\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Festival de Almada trouxe a teatros, escolas e espa\u00e7os exteriores da cidade da margem sul do Tejo. Companhias de todo o mundo revelaram, ao longo de duas semanas, uma vasta e diversificada amplitude de tem\u00e1ticas, t\u00e9cnicas e abordagens. 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