{"id":10260,"date":"2026-08-02T20:50:20","date_gmt":"2026-08-02T20:50:20","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10260"},"modified":"2026-08-02T20:50:21","modified_gmt":"2026-08-02T20:50:21","slug":"depois-da-tempestade-o-perigo-de-incendio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/02\/depois-da-tempestade-o-perigo-de-incendio\/","title":{"rendered":"Depois da tempestade, o perigo de inc\u00eandio"},"content":{"rendered":"\n<p>A tempestade Kristin deixou a nu e para toda a gente ver com muita calma e as vezes que quiser, que este pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 preparado para o que a\u00ed vem. Desde a primeira hora, ficou clara a falta de planos de conting\u00eancia s\u00e9rios. Desde a primeira hora, ficou claro que as compet\u00eancias passadas do Governo Central para as C\u00e2maras Municipais e as Juntas de Freguesia s\u00e3o imposs\u00edveis de p\u00f4r em pr\u00e1tica. E \u00e9 por isso que ainda hoje, passados 6 meses, apesar de toda a boa vontade e trabalho \u00e1rduo dos trabalhadores da administra\u00e7\u00e3o local, ainda h\u00e1 tanto por fazer e ainda temos uma total sensa\u00e7\u00e3o de desnorte. \u00c9 por isso que, quase desde a primeira hora, o sentimento de impot\u00eancia levou \u00e0 apatia de tanta gente.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia a seguir \u00e0 tempestade sab\u00edamos o que havia para fazer. Havia estradas para desimpedir, bombeiros para alimentar, vizinhos para ajudar, telhados para reparar&#8230; Mas, \u00e0 medida que o tempo passava e as autarquias pegavam nas pontas que ficaram soltas, a grande massa de volunt\u00e1rios que se mobilizou para ajudar ficou sem saber onde poderia ser \u00fatil. Muitas ajudas bem intencionadas ficaram por dar, porque n\u00e3o se soube orient\u00e1-las. Muita distribui\u00e7\u00e3o de bens foi feita (e ainda bem), mas muito telhado est\u00e1, ainda hoje, por reconstruir. Fomos abandonados pelas seguradoras, e uma C\u00e2mara Municipal ou uma Freguesia n\u00e3o servem para arranjar as casas das pessoas. \u00c9 por isso que com o fim das chuvas tamb\u00e9m fomos esquecendo que uma grande parte dos nossos telhados ainda est\u00e1 remendada com pl\u00e1sticos, chapas e lonas. Tudo se h\u00e1-de resolver de alguma maneira\u2026 Os dois dias de chuva que vieram em Junho lembraram-nos que ainda nos chove dentro de casa. As telhas que n\u00e3o encaixaram perfeitamente porque os modelos foram descontinuados, serviram de remendo provis\u00f3rio que provavelmente vai acabar por ficar at\u00e9 o telhado ser todo renovado &#8211; ou levado novamente na pr\u00f3xima ventania. Quando? Ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 falta de m\u00e3o de obra especializada, e mesmo que n\u00e3o houvesse, muita gente n\u00e3o tem como pagar os arranjos. Os apoios que iam chegar em tr\u00eas dias \u00e0s nossas contas tardam em chegar, e muitas vezes o que os seguros pagam n\u00e3o \u00e9 suficiente para reparar todos os danos. Viveremos d\u00e9cadas com casas remendadas a espuma expansiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos sentimos que o inverno se est\u00e1 a aproximar, que estes fen\u00f3menos v\u00e3o ser mais frequentes, que as nossas constru\u00e7\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o preparadas para esta nova realidade e que a protec\u00e7\u00e3o que o Pinhal de Leiria nos dava, deixou de existir depois dos inc\u00eandios de 2017 e desta tempestade. H\u00e1 um sentimento generalizado de que est\u00e3o a\u00ed outras cat\u00e1strofes \u00e0 porta, mas decidimos todos colectivamente n\u00e3o falar sobre o assunto. Talvez porque o trauma esteja ainda muito presente nas mentes de todos quando se fala de uma nova tempestade ou qualquer outro evento extremo. Talvez porque intu\u00edmos que n\u00e3o estamos hoje nem um mil\u00edmetro a mais melhor preparados para lhe fazer frente do que est\u00e1vamos a 27 de janeiro. Se passarmos por certos s\u00edtios do Concelho de Leiria, e em alguns casos nem precisamos de sair da cidade, parece que estamos no dia 29 de janeiro de 2026. Certos telhados, certas \u00e1rvores, certos sinais de tr\u00e2nsito continuam inclinados, ou mesmo no ch\u00e3o, como se tivesse acontecido tudo ontem. Mentira. N\u00e3o est\u00e1 como se tivesse sido tudo ontem. Em muitos s\u00edtios, est\u00e1 como se tivessem passado seis meses e nada tivesse sido feito. Porque, em muitos s\u00edtios, foi exactamente isso que aconteceu: nada. Se passarmos na ponte Europa em Leiria, vindos do est\u00e1dio, podemos ainda ver os restos mortais dos colch\u00f5es gigantes das v\u00e1rias modalidades de atletismo do centro de treino que a\u00ed resiste. E nesses despojos est\u00e3o a habitar pessoas. Sim, fizeram daquele lixo casa. Se fizermos o caminho Leiria &#8211; Marinha Grande, por exemplo, podemos ver sem grandes d\u00favidas quais as casas que aguardam pela chegada dos emigrantes que este ano n\u00e3o v\u00e3o ter f\u00e9rias, v\u00e3o ter obras de ver\u00e3o. Se passarmos nas matas e pinhais (\u00e9 dif\u00edcil chamar floresta a estes talh\u00f5es de monocultura), vemos como parece n\u00e3o haver plano ou norte. N\u00e3o h\u00e1 vasos comunicantes. Cada entidade faz a sua coisa \u00e0 sua maneira. Estamos no final de julho, e s\u00f3 agora est\u00e3o a ser preparados os \u201cparques de madeira\u201d para colocar todo o material lenhoso que ficou nos terrenos e que ningu\u00e9m consegue escoar, porque a madeira est\u00e1 a pre\u00e7os irris\u00f3rios. E j\u00e1 agora: porqu\u00ea criar parques de madeira onde mat\u00e9ria org\u00e2nica boa vai apodrecer sem qualquer utilidade ou valoriza\u00e7\u00e3o, enquanto o terreno florestal de onde foi retirada vai ficar completamente depauperado e entregue aos processos de eros\u00e3o que a v\u00e3o tornar ainda mais vulner\u00e1vel a estes fen\u00f3menos extremos?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque as pessoas est\u00e3o ansiosas com a possibilidade de uma \u00e9poca de fogos devastadora, e a total aus\u00eancia de pol\u00edticas florestais que valorizem o territ\u00f3rio dita que mais vale receber o material lenhoso e dar uns trocos aos propriet\u00e1rios (que o v\u00e3o usar para voltar a fazer monocultura ou nem sequer isso e deixam tudo ao abandono de vez), para que toda a gente fique mais descansada. Mais uma medida de reac\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para mostrar servi\u00e7o. A retirada sem crit\u00e9rio da biomassa destas regi\u00f5es deixa-as mais secas e expostas a futuros fogos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Ver\u00e3o est\u00e1 a\u00ed e, com ele, novas vagas de calor extremo sem precedentes aumentam a dificuldade do combate a poss\u00edveis inc\u00eandios. Olhamos para Espanha ou Fran\u00e7a horrorizados e certos que \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 tamb\u00e9m essa cat\u00e1strofe nos apanhar.<\/p>\n\n\n\n<p>E mais uma vez o sentimento de impot\u00eancia leva \u00e0 apatia. Todos sabemos que h\u00e1 uma grande probabilidade de haver inc\u00eandios, mas n\u00e3o sabemos o que fazer para o evitar. E pior: parece que ningu\u00e9m sabe. Mesmo acontecendo todos os anos, ainda ningu\u00e9m sabe o que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre os fogos, as respostas que precisamos, seja para as Kristin, seja para os fogos, seja para todos os outros fen\u00f3menos extremos que nos bater\u00e3o inevitavelmente \u00e0 porta, n\u00e3o est\u00e3o a ser preparadas. N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas s\u00e9rias de resposta \u00e0s Altera\u00e7\u00f5es Clim\u00e1ticas. Cada Munic\u00edpio desenha o seu plano avulso, encomendado a uma qualquer consultora externa que faz&nbsp;<em>copy paste<\/em>&nbsp;de encomenda para encomenda, os meios atribu\u00eddos ao poder local s\u00e3o pat\u00e9ticos, e o Governo est\u00e1 concentrad\u00edssimo em desmantelar o pouco Estado que ainda temos. Quando um planeta inteiro precisava de estar alinhado numa resposta robusta, revolucion\u00e1ria, entrosada em v\u00e1rias frentes, com v\u00e1rias especialidades a contribuir para as solu\u00e7\u00f5es, estamos entregues ao total desmantelamento das solu\u00e7\u00f5es colectivas baseadas na ci\u00eancia. Estamos reduzidos a medidas isoladas, de rea\u00e7\u00e3o, sem planeamento. Estamos todos os dias a, literal e figurativamente, apagar fogos.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 a criar-se a tempestade perfeita. Mais uma. A derradeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando um planeta inteiro precisava de estar alinhado numa resposta robusta, revolucion\u00e1ria, entrosada em v\u00e1rias frentes, com v\u00e1rias especialidades a contribuir para as solu\u00e7\u00f5es, estamos entregues ao total desmantelamento das solu\u00e7\u00f5es colectivas baseadas na ci\u00eancia. 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