{"id":10256,"date":"2026-08-02T20:46:30","date_gmt":"2026-08-02T20:46:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10256"},"modified":"2026-08-02T20:46:30","modified_gmt":"2026-08-02T20:46:30","slug":"a-guerra-civil-de-espanha-em-a-casa-de-eulalia-e-cinco-dias-cinco-noite-de-manuel-tiago-alvaro-cunhal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/02\/a-guerra-civil-de-espanha-em-a-casa-de-eulalia-e-cinco-dias-cinco-noite-de-manuel-tiago-alvaro-cunhal\/","title":{"rendered":"A Guerra Civil de Espanha em A Casa de Eul\u00e1lia e Cinco Dias Cinco Noite, de Manuel Tiago\/\u00c1lvaro Cunhal"},"content":{"rendered":"\n<p>Para al\u00e9m do territ\u00f3rio pr\u00f3prio da literatura, estes textos de Manuel Tiago\/\u00c1lvaro Cunhal inscrevem-se no vasto territ\u00f3rio, pelo seu didactismo e factual passagem de testemunho, da interven\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria e pol\u00edtica que o PCP, junto com outros partidos da esquerda europeia, teve na luta armada contra a besta fascista. Tanto em\u00a0<em>Cinco Dias, Cinco Noites,\u00a0<\/em>como em\u00a0<em>A Casa de Eul\u00e1lia,\u00a0<\/em>os padr\u00f5es comportamentais dos comunistas, como fundadores de um\u00a0<em>humanismo de tipo novo<\/em>, de uma atitude coerente, racional, dial\u00e9ctica, interventora e cr\u00edtica sobre os mecanismos da hist\u00f3ria, est\u00e3o claramente assinalados e definidos, mesmo quando neles transparece a an\u00e1lise pol\u00edtica, em sua absoluta crueza, do que esteve na origem do conflito e das for\u00e7as reacion\u00e1rias que lhe deram suporte, descendo ao cerne das quest\u00f5es centrais da luta contra a barb\u00e1rie capitalista que ainda hoje \u2013 diria, sobretudo hoje \u2013 devem acometer o debate ideol\u00f3gico da\u00a0<em>Esquerda<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>A Casa de Eul\u00e1lia<\/em>, \u00e9 uma narrativa pungente sobre o in\u00edcio das atrocidades contra a Rep\u00fablica espanhola. Manuel Tiago tra\u00e7a, de forma ex\u00edmia, as coordenadas hist\u00f3ricas desses dias de brasa. Regressando, como em&nbsp;<em>Cinco Dias,<\/em>&nbsp;\u00e0s suas mem\u00f3rias de juventude, enquanto funcion\u00e1rio do PCP, enviado a Madrid para tratar da liberta\u00e7\u00e3o de comunistas presos ao passarem a fronteira. Essa passagem est\u00e1 descrita, de forma clara, na diegese desta novela:&nbsp;<em>Precisamente em Huelva estavam os dois camaradas que h\u00e1 uma semana tinham sido presos pela Guardia Civil, apanhados ao passar clandestinamente a fronteira pelo Guadiana. Ali em Madrid estavam procurando que a interven\u00e7\u00e3o dos camaradas espanh\u00f3is conseguisse que o Governo os libertasse para regressarem a Portugal. Ele pr\u00f3prio teria que tratar da passagem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se&nbsp;<em>Cinco Dias, Cinco Noites,&nbsp;<\/em>nos fala da viagem acidentada do jovem funcion\u00e1rio do PCP at\u00e9 \u00e0 fronteira, dos seus perigos e acidentes,&nbsp;<em>A Casa de Eul\u00e1lia,&nbsp;<\/em>diz-nos da morte em toda a sua crueza e desumanidade, o&nbsp;<em>viva la muerte<\/em>, do fascista Jos\u00e9 Mill\u00e1n-Astray, levado ao extremo da ignom\u00ednia. A morte que Ant\u00f3nio observa nos descampados \u00e1ridos que o&nbsp;<em>sol inclemente seca<\/em>&nbsp;\u2013 campos onde nada h\u00e1, a n\u00e3o ser o instinto animal dos chacais: \u201cSi no hay nada que les pueda servir por qu\u00e9 iban a hacernos d\u00e3no?\u201d. Mas os franquistas, aperrados a um \u00f3dio visceral e sem sentido, n\u00e3o se prendem a quest\u00f5es de pormenor: tudo o que cheire a povo, mesmo pac\u00edfico e sem qualquer liga\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria \u00e0 Rep\u00fablica eleita, \u00e9 para abater:&nbsp;<em>Viva la Muerte!<\/em>&nbsp;Cunhal expressa neste livro dois sentidos em tudo antag\u00f3nicos: os que apenas tinham a morte como raz\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o das liberdades sociais e pol\u00edticas como objectivo, e os que lutavam para defender a Liberdade conquistada e queriam, com o risco supremo de perder a vida nesse empenho, vencer o fascismo, vencer a morte e tornar digna a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Da galeria de personagens desta narrativa, sobressai Eul\u00e1lia, como s\u00edmbolo de coragem, de determina\u00e7\u00e3o e combate, companheira omnipresente nesses dias do medo; Eul\u00e1lia, com a&nbsp;<em>gra\u00e7a do dentito torto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os discursos narrativos de&nbsp;<em>Cela 3, At\u00e9 Amanh\u00e3, Camaradas, A Casa de Eul\u00e1lia, Estrela de Seis Pontas, Os Corr\u00e9cios<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>Cinco Dias, Cinco Noites&nbsp;<\/em>(para nos limitarmos aos t\u00edtulos mais significativos da fic\u00e7\u00e3o de Manuel Tiago), balan\u00e7am entre o passado (a resist\u00eancia, a fuga, a repress\u00e3o, a vida numa pris\u00e3o de delito comum &#8211;&nbsp;<em>Estrela de Seis Pontas<\/em>, no qual o autor exibe um estilo fortemente realista para descrever os crimes daqueles homens, v\u00edtimas tamb\u00e9m da repress\u00e3o e da desumanidade do sistema capitalista -, as sev\u00edcias da PIDE, a vida na clandestinidade, a heroicidade dos republicanos e das&nbsp;<em>brigadas vermelhas<\/em>&nbsp;durante a Guerra Civil em Espanha, nas quais os comunistas e outros antifascistas portugueses tamb\u00e9m participaram: no assalto ao Quartel da Monta\u00f1a e a Carabanchel, em Madrid, no Guadarrama, em Somossierra, e durante o cerco e os bombardeamentos dos nazi-fascistas italo\/alem\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, os livros de Manuel Tiago\/\u00c1lvaro Cunhal narram os percursos dif\u00edceis, sinuosos, her\u00f3icos, altru\u00edstas e abnegados, tamb\u00e9m de pequenas trai\u00e7\u00f5es, que espelham as ang\u00fastias, os medos, os sobressaltos de um punhado de homens e mulheres que, num tempo de estupor e de absurdo, souberam resistir. Uma escrita onde as palavras se erguem justas e certeiras para testemunhar combates, avan\u00e7os e recuos de uma epopeia colectiva, inscrita na coragem, nos sil\u00eancios mordidos, na clausura e na esperan\u00e7a de ambos os povos, de um e de outro lado da fronteira \u2013 na certeza, que \u00e9 uma forma de optimismo, de que, face \u00e0 vida e \u00e0s circunst\u00e2ncias geradas pela luta e ao devir hist\u00f3rico, melhores dias vir\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Cinco Dias, Cinco Noites&nbsp;<\/em>e&nbsp;<em>A Casa de Eul\u00e1lia,&nbsp;<\/em>de Manuel Tiago \u2013 Edi\u00e7\u00f5es Avante!<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos conflitos mais mort\u00edferos e graves acontecidos na 1\u00aa. metade do s\u00e9culo XX foi, depois da 2\u00aa. Guerra Mundial, a Guerra Civil de Espanha. No ano em que se assinala o 90\u00ba. Anivers\u00e1rio do seu in\u00edcio (17 de Julho de 1936), com um golpe de Estado perpetrado por um grupo de militares conservadores contra o poder leg\u00edtimo da 2\u00aa. Rep\u00fablica, parece-nos importante referir nestas p\u00e1ginas 2 livros de Manuel Tiago\/\u00c1lvaro Cunhal, em que o autor e pol\u00edtico revela as suas mem\u00f3rias do conflito, no qual participou, como enviado do PCP, logo nos seus prim\u00f3rdios.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":10257,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10256"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10256"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10256\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10259,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10256\/revisions\/10259"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10256"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}