{"id":10244,"date":"2026-08-02T20:35:43","date_gmt":"2026-08-02T20:35:43","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10244"},"modified":"2026-08-02T20:58:27","modified_gmt":"2026-08-02T20:58:27","slug":"a-cultura-nao-e-uma-poca-parada-e-um-rio-onde-a-agua-esta-sempre-a-correr-e-a-misturar-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/08\/02\/a-cultura-nao-e-uma-poca-parada-e-um-rio-onde-a-agua-esta-sempre-a-correr-e-a-misturar-se\/","title":{"rendered":"Ghoya: \u201cA cultura n\u00e3o \u00e9 uma po\u00e7a parada.\u00a0\u00c9 um rio onde a \u00e1gua est\u00e1 sempre a correr e a misturar-se.\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Como come\u00e7aste o teu percurso na m\u00fasica?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que isso \u00e9 quase um clich\u00ea. Eu n\u00e3o encontrei a m\u00fasica, a m\u00fasica n\u00e3o me encontrou, acabou por ser uma cena bem natural, porque a m\u00fasica \u00e9, por excel\u00eancia, um \u00f3timo ve\u00edculo para transmitirmos, comunicarmos. At\u00e9 uma certa idade, eu tive sempre muita dificuldade para comunicar. Conhecendo a m\u00fasica, o primeiro contacto nunca foi pensar num \u201cqueres ser isto ou queres ser aquilo\u201d. \u00c9 um abra\u00e7o terap\u00eautico. Encontrei na m\u00fasica uma forma onde eu me sentia muito mais \u00e0 vontade em comunicar-me, expressar as minhas ideias e faz\u00ea-las com o sentimento que hoje sinto. O rap para mim foi bem natural, porque foi uma cena que casou com outra. S\u00f3 muito mais \u00e0 frente \u00e9 que ganhou essa dimens\u00e3o na minha vida, enquanto artista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Quais foram as tuas maiores refer\u00eancias?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um conjunto de v\u00e1rios fatores. O meu primeiro contacto com o rap foi enquanto ouvinte. O meu primeiro amor com a m\u00fasica n\u00e3o foi o rap, foi o reggae. Era um fan\u00e1tico do reggae, as paredes do meu quarto eram todas forradas com cenas do Bob Marley. Depois, quando comecei a aprofundar o meu conhecimento sobre o reggae e o movimento Rastafari, percebi que, embora gostasse bu\u00e9 daquilo, n\u00e3o era a minha cena. Depois conheci o rap e pessoas como o Mang\u00e1, que me apresentou o funk, o Buts, que foi um dos primeiros rappers com quem trabalhei. O Buts acabou por me ensinar bases que n\u00e3o t\u00eam muito a ver com a m\u00fasica, mas com a tua \u00e9tica, enquanto valores, o respeito que n\u00f3s devemos ter pelo movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Nunca mais me esque\u00e7o de um epis\u00f3dio. Est\u00e1vamos a gravar um som e eu estava a comer uma sandes enquanto esperava pela minha vez. O Buts parou a grava\u00e7\u00e3o e deu-me uma desanca enorme sobre \u00e9tica, justi\u00e7a e respeito que n\u00f3s dever\u00edamos ter para o microfone e para aquilo que queremos dizer \u00e0s pessoas. Na altura foi uma li\u00e7\u00e3o, mas anos mais tarde comecei a perceber o peso que aquilo teve.<\/p>\n\n\n\n<p>O Editox, o Moreno, foram pessoas que fizeram muita diferen\u00e7a na minha caminhada. Depois, claro, o Pac, o Eazy e o pessoal das antigas. Acho que isso tudo veio a dar o Ghoya que eu sou hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Que conselho d\u00e1s a quem quer come\u00e7ar a fazer rap e n\u00e3o tem recursos?<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje temos uma maior independ\u00eancia para produzir a nossa pr\u00f3pria m\u00fasica. Mas o maior problema tem sido estrutural. Falta uma estrutura que leve os artistas para os palcos, para os festivais, que trate de uma boa produ\u00e7\u00e3o, de uma boa comunica\u00e7\u00e3o e de um bom marketing.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje h\u00e1 muito talento. As dificuldades para produzir j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o tantas como antigamente. Mas as dificuldades para construir uma estrutura que permita ter uma plataforma de trabalho continuam a ser muito grandes. Eu ou\u00e7o colegas que felizmente j\u00e1 conseguem viver da m\u00fasica, mas a grande maioria somos apenas produto da nossa pr\u00f3pria m\u00e3o, porque n\u00e3o conseguimos furar essa bolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos muitos manos cheios de talento que n\u00e3o conseguem ser donos do seu pr\u00f3prio trabalho. O movimento carece muito dessa estrutura profissional, uma estrutura que ajude os nossos artistas a catapultarem-se de forma s\u00f3lida, para que possam viver da sua arte. A m\u00fasica gera trabalho, gera empregos. Um rapper que consiga crescer cria uma equipa inteira \u00e0 sua volta. Imagina isso multiplicado pelos muitos jovens talentosos que existem nas comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>As grandes empresas sabem disso e acabam por individualizar um movimento que sempre se regeu pelo coletivo. Conseguem fazer isso pela sede de gl\u00f3ria, pela sede da carreira, pelos n\u00fameros. N\u00f3s pr\u00f3prios acabamos por nos deixar corromper.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porque escolheste rimar sempre em crioulo?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sempre rimei em crioulo. Nem \u00e9 tanto por facilidade, mas sim por naturalidade. Vais s\u00f3 em crioulo, sentes em crioulo.<\/p>\n\n\n\n<p>A minha vida toda teve essa dualidade. Tenho a cultura cabo-verdiana e tenho tamb\u00e9m a cultura daqui, dos s\u00edtios onde cresci. E as duas n\u00e3o t\u00eam dese anular. As duas t\u00eam de aprender a coexistir.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo da minha carreira, as cr\u00edticas mais frequentes vinham dos pr\u00f3prios manos da comunidade: \u2018Tu \u00e9s bom, mas se cantasses em portugu\u00eas ias chegar a mais pessoas\u2019. Depois os portugueses diziam: \u2018N\u00f3s gostamos, mas n\u00e3o percebemos tudo\u2019. Eu perguntava sempre porque \u00e9 que as duas coisas n\u00e3o podem coexistir.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acredito na mistura de culturas. A cultura n\u00e3o \u00e9 uma po\u00e7a parada. \u00c9 um rio onde a \u00e1gua est\u00e1 sempre a correr e a misturar-se. O crioulo \u00e9 uma \u00f3tima ferramenta para construir pontes, porque a comunica\u00e7\u00e3o aproxima as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O rap continua a ter obriga\u00e7\u00e3o de intervir socialmente?<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida. Acho que a arte, a cultura em si, muito para al\u00e9m do rap, sempre esteve ao servi\u00e7o das causas de liberta\u00e7\u00e3o, das causas de emancipa\u00e7\u00e3o. Eu percebo pouco a forma como a arte se est\u00e1 a desligar disso. Pior ainda, como a arte n\u00e3o se importa de se desligar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou um artista do povo. E eu, enquanto artista do povo, acredito que o meu compromisso \u00e9 com o povo. Eu quero ver o povo e quero que o povo me veja nos olhos, no mesmo n\u00edvel. Porque eu quero me comunicar contigo. Eu sou igual a ti e quero que tu sintas isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando n\u00f3s abra\u00e7amos a cultura do endeusamento art\u00edstico, isso envenena-nos ao ponto de n\u00f3s querermos ver o povo que n\u00f3s representamos de cima para baixo. E eles v\u00eaem-nos de baixo para cima, como se n\u00f3s f\u00f4ssemos deuses. A arte pode ser amor, pode ser alegria, pode ser muita coisa. Mas essa caracter\u00edstica de milit\u00e2ncia, de luta, tem de estar sempre l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O rap tornou-se um grande neg\u00f3cio. Nesse grande neg\u00f3cio h\u00e1 muita gente que est\u00e1 disposta a tudo, at\u00e9 \u00e0s justifica\u00e7\u00f5es para legitimar aquilo que n\u00e3o faz. Hoje h\u00e1 mais desculpas para n\u00e3o sermos interventivos do que propriamente raz\u00f5es para o sermos, quando eu acho exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O caso de Odair Moniz voltou a colocar em debate a viol\u00eancia policial e o racismo institucional. Que leitura fazes desse caso?<\/p>\n\n\n\n<p>O caso do Odair gerou muitos raps. Assim como outros casos. Mas n\u00f3s, enquanto rappers, temos uma responsabilidade muito maior do que apenas instrumentalizar essas verdades e refletir isso nas nossas m\u00fasicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria da malta que consome o nosso trabalho, que vai aos nossos concertos e que n\u00f3s dizemos representar nas nossas m\u00fasicas, s\u00e3o pessoas como o Odair. S\u00e3o os vizinhos do Odair. S\u00e3o os nossos amigos l\u00e1 do bairro. Qualquer um deles amanh\u00e3 pode ser outro Odair.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pode ser s\u00f3 uma quest\u00e3o de n\u00fameros. N\u00e3o pode ser s\u00f3 uma quest\u00e3o de instrumentaliza\u00e7\u00e3o de uma narrativa. \u00c9 preciso materializar essa indigna\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se afunilem somente nas nossas carreiras enquanto artistas. Os n\u00fameros s\u00e3o importantes, a carreira tamb\u00e9m \u00e9 importante, mas \u00e9 importante termos esse posicionamento, porque n\u00e3o ter posicionamento j\u00e1 \u00e9 posicionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes \u00e9 mais f\u00e1cil vermos o erro de fora para dentro do que de dentro para fora. Existem muitos erros dentro do pr\u00f3prio movimento que n\u00f3s precisamos melhorar. N\u00e3o fazer nada \u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O que sentes quando olhas para a resposta da Justi\u00e7a neste caso?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s temos na nossa comunidade o Tribunal de Sintra, que condenou o agente Bruno Pinto a tr\u00eas anos de pena suspensa pelo assassinato do Odair Moniz. \u00c9 o mesmo tribunal que mais manda os nossos putos para a cadeia. A maioria de n\u00f3s pis\u00e1mos naquele tribunal ainda com 16, 17 ou 18 anos e sa\u00edmos de l\u00e1 com 30 ou 40.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse mesmo tribunal, que \u00e9 rigoroso a mandar os nossos putos para a cadeia por coisas muito menos graves, normaliza uma situa\u00e7\u00e3o destas. Estamos a falar da adultera\u00e7\u00e3o da cena do crime, da oculta\u00e7\u00e3o de provas. Um agente da autoridade, em quem n\u00f3s depositamos confian\u00e7a e poder, n\u00e3o pode traduzir essa confian\u00e7a em adultera\u00e7\u00e3o da cena do crime ou falsifica\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>As comunidades tamb\u00e9m precisam da pol\u00edcia. Mas, acima de tudo, precisamos de uma pol\u00edcia que seja imparcial em quest\u00f5es c\u00edvicas e super comprometida com a lei. S\u00f3 assim as comunidades v\u00e3o voltar a confiar nas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque todos sabemos que, se o Odair fosse outra pessoa, que n\u00e3o fosse um homem preto das comunidades empobrecidas do nosso pa\u00eds, o desfecho desse caso seria outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Mant\u00e9ns esperan\u00e7a de que as coisas possam mudar?<\/p>\n\n\n\n<p>Se eu n\u00e3o tivesse esperan\u00e7a, n\u00e3o fazia nada do que fa\u00e7o. Porque acredito que, para a gente continuar a lutar, tem que haver esperan\u00e7a. Sen\u00e3o \u00e9 uma luta vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a convic\u00e7\u00e3o for mais forte do que a minha for\u00e7a f\u00edsica, eu n\u00e3o vou parar. Eu s\u00f3 espero que a malta interiorize, de uma forma profunda, que n\u00f3s estamos a lutar por uma mudan\u00e7a que muito provavelmente n\u00f3s n\u00e3o haveremos de ver.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as mudan\u00e7as que n\u00f3s conseguirmos testemunhar enquanto estivermos vivos devemos festej\u00e1-las com todas as nossas for\u00e7as. Mas, enquanto a mudan\u00e7a definitiva n\u00e3o acontecer, continuar a lutar. Continuar a prevalecer, ainda que estejamos cansados. N\u00e3o fazer nada \u00e9 que n\u00e3o muda absolutamente nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de lan\u00e7ar Fincadu, o mais recente \u00e1lbum que assinala uma nova etapa na sua carreira, Ghoya reafirma o lugar que tem vindo a construir no panorama do rap crioulo em Portugal. Mais do que um disco, o rapper descreve-o como um manifesto de identidade, perten\u00e7a e interven\u00e7\u00e3o social. Numa conversa com a Voz do Oper\u00e1rio, fala do percurso que o levou \u00e0 m\u00fasica, da escolha de rimar em crioulo, dos desafios enfrentados pelos artistas independentes e da convic\u00e7\u00e3o de que o rap continua a ter um papel fundamental na luta contra as desigualdades e na defesa das comunidades que representa.<\/p>\n","protected":false},"author":166,"featured_media":10245,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[260],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10244"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/166"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10244"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10244\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10282,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10244\/revisions\/10282"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10244"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}