{"id":10083,"date":"2026-06-08T11:28:34","date_gmt":"2026-06-08T11:28:34","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10083"},"modified":"2026-06-08T11:28:34","modified_gmt":"2026-06-08T11:28:34","slug":"o-ceu-caira-sobre-nos-de-lidia-jorge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/06\/08\/o-ceu-caira-sobre-nos-de-lidia-jorge\/","title":{"rendered":"O C\u00e9u Cair\u00e1 Sobre N\u00f3s, de L\u00eddia Jorge"},"content":{"rendered":"\n<p>30 cr\u00f3nicas que falam deste nosso conturbado tempo, que v\u00e3o ao \u00e2mago das grandes quest\u00f5es que inquietam as consci\u00eancias mais atentas e sens\u00edveis \u00e0s injusti\u00e7as, \u00e0 guerra, ao genoc\u00eddio, \u00e0 pervers\u00e3o pol\u00edtica e social que t\u00eam abalado este primeiro quarto de s\u00e9culo do novo mil\u00e9nio. L\u00eddia Jorge percorre, neste livro, com olhar seguro e incisivo, as traves mestras do nosso descontentamento e perplexidade. Logo na primeira cr\u00f3nica, que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, a autora de&nbsp;<em>O Dia dos Prod\u00edgios&nbsp;<\/em>nos fala das incurs\u00f5es americanas no Afeganist\u00e3o, e da morte de Osama Bin Laden, levada a cabo por um comando dos USA, mas tamb\u00e9m de uma balada da resist\u00eancia do povo afeg\u00e3o \u00e0s cont\u00ednuas incurs\u00f5es de for\u00e7as estrangeiras no seu territ\u00f3rio:&nbsp;<em>O c\u00e9u cair\u00e1 sobre n\u00f3s\/e ainda assim estarei c\u00e1 para vos amedrontar. \/As nossas barbas deixar\u00e3o de ser grisalhas\/e os nossos ossos regressar\u00e3o \u00e0 terra que os deu a nascer\/mas ainda assim c\u00e1 estarei para vos atrapalhar. \/H\u00e1 muito que este solo sagrado deixou de ser f\u00e9rtil. \/E as nossas mulheres s\u00e3o feias: Porque quereis ent\u00e3o este territ\u00f3rio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Desde Alexandre , o Grande, que o Afeganist\u00e3o tem sido pasto de diversas, e sempre mais violentas, incurs\u00f5es de ex\u00e9rcitos estrangeiros no seu territ\u00f3rio e, esse facto, n\u00e3o se ficar\u00e1 a dever, como diz a can\u00e7\u00e3o, \u00e0 beleza das suas mulheres (embora essa refer\u00eancia seja subjectiva), sequer \u00e0 excel\u00eancia dos seus solos ou a outras riquezas, como o petr\u00f3leo, ou&nbsp;<em>terras raras&nbsp;<\/em>que suscitam a gan\u00e2ncia de grandes pot\u00eancias, mas t\u00e3o-s\u00f3 ao seu privilegiado espa\u00e7o geogr\u00e1fico, espa\u00e7o agora dominado por aqueles que o ocidente combateu ao longo de d\u00e9cadas: os talib\u00e3s sentam-se na cadeira do poder em Cabul e nunca as suas&nbsp;<em>feias mulheres<\/em>, estiveram t\u00e3o inseguras. Mas \u00e9 a terra que lhes pertence e ao povo afeg\u00e3o caber\u00e1 geri-lo como melhor lhes aprouver, mesmo que no poder esteja um grupo fan\u00e1tico e pouco recomend\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra das cr\u00f3nicas deste livro fala-nos da&nbsp;<em>Covid,&nbsp;<\/em>da \u201cnossa consci\u00eancia comovida\u201d, da forma como o homem tem vindo, cada vez com mais ferocidade, a esgotar os recursos da Terra, at\u00e9 \u201cchegarmos a um esgotamento sem retorno\u201d e mais, L\u00eddia Jorge fala do surto pand\u00e9mico como o momento central em que a sua propaga\u00e7\u00e3o planet\u00e1rio colocou \u201ca nu a forma como as democracias se tornaram presas f\u00e1ceis dos extremismos sanguin\u00e1rios, baseados em pressupostos individualistas, que conduzem \u00e0 defesa intransigente dos nacionalismos mais arcaicos\u201d, advogando, como necessidade absoluta da contemporaneidade, o regresso \u00e0 Arte e \u00e0 Cultura, ao Livro e \u00e0 leitura, como \u201cbens essenciais da vida humana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos neste livro 30 cr\u00f3nicas exemplares, escritas por uma das nossas escritoras de refer\u00eancia, voz singular que se tem expressado, com rigor criativo em v\u00e1rios registos, a qual, no ano pret\u00e9rito, foi convidada, pelo ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica, a proferir o discurso do dia de Cam\u00f5es e das Comunidades. Esse discurso est\u00e1 presente neste livro e nele est\u00e3o reflectidas algumas opini\u00f5es s\u00e1bias e corajosas que levaram os grupos de extrema direita a invetivar a autora, da forma ignorante como \u00e9 seu apan\u00e1gio, por esta passagem do discurso: \u00abConsta que em pleno s\u00e9culo XVII, dez por cento da popula\u00e7\u00e3o portuguesa teria origem africana. Essa popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos tinha invadido, os portugueses os tinham trazido arrastados. E nos miscigen\u00e1mos. O que significa que por aqui ningu\u00e9m tem sangue puro, a fal\u00e1cia da ascend\u00eancia \u00fanica n\u00e3o tem correspond\u00eancia com a realidade. Cada um de n\u00f3s \u00e9 uma soma. Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p><em>Encaro o Mundo como um mist\u00e9rio por desvendar,&nbsp;<\/em>escreve L\u00eddia Jorge na contracapa deste livro de cr\u00f3nicas. S\u00e3o livros como este que nos ambrem janelas sobre esse mist\u00e9rio que \u00e9 o Mundo que habitamos.<\/p>\n\n\n\n<p><em>O C\u00e9u Cair\u00e1 sobre N\u00f3s,&nbsp;<\/em>de L\u00eddia Jorge \u2013 Edi\u00e7\u00e3o D. Quixote\/2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecemos os romances e os contos (alguns, prodigiosos), de L\u00eddia Jorge. Faltava-nos, depois desse magn\u00edfico romance que \u00e9 Miseric\u00f3rdia, as cr\u00f3nicas que escreveu para o jornal espanhol El Pa\u00eds, entre Agosto de 2021 e Dezembro de 2025.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":10084,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10083"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10083"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10086,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10083\/revisions\/10086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10083"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}