{"id":10016,"date":"2026-05-09T17:46:34","date_gmt":"2026-05-09T17:46:34","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=10016"},"modified":"2026-05-09T17:46:34","modified_gmt":"2026-05-09T17:46:34","slug":"quem-ganha-e-quem-perde-com-a-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2026\/05\/09\/quem-ganha-e-quem-perde-com-a-guerra\/","title":{"rendered":"Quem ganha e quem perde com a guerra?"},"content":{"rendered":"\n<p>Seria po\u00e9tico dizer que na guerra n\u00e3o h\u00e1 vencedores, s\u00f3 vencidos. Mas isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Claro que h\u00e1 vencedores. Sempre houve vencedores. Se n\u00e3o houvesse vencedores j\u00e1 tinham acabado as guerras. Esses vencedores n\u00e3o s\u00e3o \u00e9 \u00aba R\u00fassia\u00bb ou \u00aba Ucr\u00e2nia\u00bb ou \u00abos EUA\u00bb ou \u00abIsrael\u00bb. S\u00e3o classes e camadas concretas dentro dos pa\u00edses em guerra e at\u00e9 nos pa\u00edses fora da guerra mas nela intervindo indirectamente. Por exemplo, Portugal n\u00e3o participou directamente na Segunda Guerra Mundial, mas v\u00e1rios cidad\u00e3os de bem ficaram ricos a especular com os escassos alimentos ou a fazer neg\u00f3cio com a Alemanha Nazi, isto enquanto o povo portugu\u00eas rebentava de fome. \u00c9 o mercado, como diriam os agora modernos liberais, e a Alemanha Nazi pagava melhor as conservas que o pre\u00e7o que o empobrecido povo portugu\u00eas podia pagar.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma primeira dimens\u00e3o de vencedores que n\u00e3o pode ser ignorada: a ind\u00fastria b\u00e9lica. Nos pa\u00edses onde ela est\u00e1 privatizada \u2013 como os EUA \u2013 s\u00e3o evidentemente n\u00e3o s\u00f3 um importante conjunto de indiv\u00edduos que objectivamente ganham com a guerra, como tamb\u00e9m evidentemente s\u00e3o uma for\u00e7a pela promo\u00e7\u00e3o da guerra. Num sistema eleitoral completamente anti-democr\u00e1tico, onde ganha quem reunir maiores apoios econ\u00f3micos, um neg\u00f3cio que distribui milh\u00f5es de milh\u00f5es de euros em dividendos \u00e9 um actor eleitoral de peso, contribui decisivamente para a elei\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o elei\u00e7\u00e3o daqueles que depois t\u00eam que fazer ou desfazer a guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Os especuladores s\u00e3o uma segunda dimens\u00e3o de vencedores. H\u00e1 uns valentes anos esta era uma actividade mal vista, amaldi\u00e7oada em todos os Livros, e que podia custar a pele \u00e0queles que se aproveitavam das crises e da necessidade dos pa\u00edses e dos povos para a\u00e7ambarcar e especular. Agora esse \u00e9 o modelo de sociedade em que vivemos. O mercado liberalizado \u00e9 a legaliza\u00e7\u00e3o \u2013 quase o eudeusamento \u2013 de muitas das piores pr\u00e1ticas dos sistemas anteriores. Veja-se o que est\u00e1 a acontecer com o pre\u00e7o dos combust\u00edveis \u2013 e vejam-se os lucros perfeitamente escandalosos das petrol\u00edferas. A Galp, nos primeiros tr\u00eas meses deste ano, aumentou a margem de refina\u00e7\u00e3o de 6,9 para 14,8 d\u00f3lares por barril, ou seja 115% de aumento da margem de refina\u00e7\u00e3o, da margem, ou seja, daquilo que aplica em cima do pre\u00e7o do petr\u00f3leo e dos custos de produ\u00e7\u00e3o. S\u00f3 na refina\u00e7\u00e3o (depois ainda h\u00e1 as margens para o transporte, para a distribui\u00e7\u00e3o e para a explora\u00e7\u00e3o comercial). Isto \u00e9 pura especula\u00e7\u00e3o. \u00c9 a Galp \u2013 e os seus accionistas \u2013 a aproveitarem a guerra para roubar os motoristas, as empresas de camionagem, os agricultores.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo acontece com o pre\u00e7o de venda ao p\u00fablico do combust\u00edvel: os idiotas \u00fateis (\u00fateis a quem lhes paga) dos deputados do CH e da IL bem insistem na Tese que o problema s\u00e3o os impostos, que pagamos muitos impostos, o Ministro das Finan\u00e7as (tamb\u00e9m muito \u00fatil aos mesmos \u201cdonos disto tudo\u201d) afirma perempt\u00f3rio que o Estado n\u00e3o tem que limitar pre\u00e7os, s\u00f3 deve mexer nos impostos, mas depois quem estudar o pre\u00e7o do combust\u00edvel v\u00ea toda a especula\u00e7\u00e3o nele contida.<\/p>\n\n\n\n<p>Para se ter uma ideia, olhemos para o pre\u00e7o do gas\u00f3leo: Hoje, 24 Abril, est\u00e1 a 2,086 \u20ac na bomba da Galp. O pre\u00e7o de refer\u00eancia decidido pela ERSE \u00e9 de 1,716 \u20ac, ou seja, pode-se vender com lucro a 1,716 \u20ac. Primeira conclus\u00e3o: h\u00e1 uma margem de 37 c\u00eantimos acima do pre\u00e7o de refer\u00eancia. Essa margem \u00e9 ela pr\u00f3pria superior ao que se paga em ISP (0,29 \u20ac) ou o que se paga de Taxa de Carbono (0,17 \u20ac). Se tivermos em conta que o pre\u00e7o de refer\u00eancia j\u00e1 inclui um conjunto de elementos especulativos (desde o recurso ao \u00edndice de Platt \u00e0 interioriza\u00e7\u00e3o das margens especulativas da refina\u00e7\u00e3o e ainda inclui parcelas fict\u00edcias no frete), e que s\u00f3 a especula\u00e7\u00e3o na refina\u00e7\u00e3o denunciada no par\u00e1grafo anterior se reflecte nuns 10 c\u00eantimos por litro, vemos como o que se paga de impostos (ISP e TC) \u00e9 igual ou menor que as margens especulativas aplicadas pela Galp. E nesta conta nem se teve em conta o efeito especulativo sobre a produ\u00e7\u00e3o e transporte, sobre o pr\u00f3prio pre\u00e7o do petr\u00f3leo, que nada tem a ver com custos de produ\u00e7\u00e3o, e tem hoje um efeito n\u00e3o menor que o impacto do IVA, o outro imposto que se paga, e que no caso das empresas \u00e9 no essencial devolvido.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 ainda uma terceira dimens\u00e3o de vencedores: o (neo)colonialismo e todos os que beneficiam do colonialismo. A guerra destr\u00f3i o aparelho produtivo dos pa\u00edses que se quer submeter. Enfraquece-os, torna-os dependentes. E refor\u00e7a o aparelho produtivo das grandes pot\u00eancias e o mercado pra o qual vendem. Contribui, junto de um conjunto de outras pol\u00edticas igualmente agressivas, (como sejam san\u00e7\u00f5es, bloqueios, golpes de Estado, cria\u00e7\u00e3o e financiamento de partidos pol\u00edticos ou ONG), para submeter o poder pol\u00edtico desse pa\u00eds, colocando no poder uma burguesia de tipo \u00abcomprador\u00bb, ou seja, que faz a sua riqueza atrav\u00e9s da posi\u00e7\u00e3o de intermedi\u00e1rio entre, por um lado, as multinacionais ou os Estados estrangeiros, e por outro, a popula\u00e7\u00e3o e as empresas locais. A guerra serve n\u00e3o apenas para tentar obter esse resultado no pa\u00eds atacado, mas serve como mecanismo de press\u00e3o sobre todos os outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>A vit\u00f3ria da ind\u00fastria b\u00e9lica representa ainda o desvio de recursos que podiam ser colocados ao servi\u00e7o da humanidade e da resolu\u00e7\u00e3o dos problemas da humanidade. A vit\u00f3ria dos especuladores afecta, sangra, toda a economia. E a ascens\u00e3o de burguesia tipo \u00abcomprador\u00bb ao poder de um pa\u00eds tem o efeito destrutivo que podemos ver no nosso.<\/p>\n\n\n\n<p>A defesa da paz e do desarmamento mundial, a nacionaliza\u00e7\u00e3o dos sectores estrat\u00e9gicos e a defesa de uma pol\u00edtica patri\u00f3tica, n\u00e3o s\u00e3o medidas especialmente revolucion\u00e1rias \u2013 n\u00e3o socializam a economia, n\u00e3o exigem a entrega do poder aos sovietes.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o quase medida de higiene e autodefesa, porque, e desdizendo o car\u00e1cter absoluto de uma frase j\u00e1 usada neste artigo, um mundo conduzido pelos seus piores instintos pode dar o passo para a \u00fanica das guerras onde de facto n\u00e3o h\u00e1 vencedores: a guerra termonuclear que extinguiria a Humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra n\u00e3o \u00e9 a bola, como muitas vezes parece se ouvirmos (ou lermos) os geo-estrategas de sof\u00e1 que hoje por a\u00ed abundam. A China, a R\u00fassia, os EUA, a \u00abEuropa\u00bb, as jogadas, os ganhos, as perdas, o grande xadrez do qual todos acreditamos conhecer as regras. A guerra s\u00e3o mortos e feridos, membros amputados, homens cegos outros enlouquecidos, mulheres violadas ou mesmo escravizadas, fam\u00edlias apagadas da face da terra, escolas, hospitais, f\u00e1bricas, pontes e casas destru\u00eddas. Os povos do mundo tinham-no bem marcado quando tentaram, em 1945, criar um mecanismo que libertasse o mundo de guerras para sempre.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":10017,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[259],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10016"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10016"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10016\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10019,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10016\/revisions\/10019"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10017"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10016"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=10016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}